A FORMAÇÃO DO CORPO DE ADÃO

Diz a profissão de fé do Papa Pelágio I (“Fides Pelagii”) enviada a Childeberto I, rei dos francos: “Todos os homens, em efeito, desde Adão até a consumação do tempo, nascidos e mortos com o mesmo Adão e sua mulher, que não nasceram de outros pais, senão que um foi criado da terra e outra da costela do varão (…)” (D 228a).

Isso permite duas interpretações:

1) O homem é formado de matéria inorgânica pré-existente de modo imediato (posição de Sto Tomás e tradicional);

2) O homem é formado de matéria inorgânica pré-existente (o barro ou limo da terra, ou pó da terra) de modo mediato (a matéria inorgânica foi animada com formas substanciais intermediárias).

Alguns teólogos salientam a necessidade de intervenção divina na produção do corpo do homem, não importando o modo pelo qual provém da matéria inorgânica. Isso é defendido na resposta da Comissão Bíblica em 1909, como algo que deve ser mantido. Em respostas dadas por essa Comissão, também se salientou a necessidade de se aderir literalmente à formação miraculosa da mulher, que foi tomada do corpo do homem.

O Dr. Mivart pensava, contudo, que essa intervenção divina na formação do corpo do homem, na forma miraculosa, era dispensável, e, mais tarde Pio XII dá a entender algo parecido na “Humani generis”. De fato, em nosso parecer, não haveria uma necessidade absoluta de que assim fosse, pois tudo o que é material pode encontrar-se, de certa forma, em potência na matéria, e passar ao ato por ação de causas naturais, sempre tomando como ponto central a condução desse processo pela Providência divina.

Sem dúvida, um produto da inteligência humana, como uma televisão, embora estivesse em potência na matéria, não poderia passar ao ato sem pré-existir numa causa exemplar, mas o corpo do homem não precisaria de uma causa exemplar secundária. Sua formação, caso não seja miraculosa, feita diretamente por Deus e alheia às causas naturais, parece exigir causas unívocas (as quais seriam seres animados precedentes que imprimiriam nos seres por eles produzidos sua própria forma, como na reprodução) com a atuação conjunta das causas análogas.

Santo Tomás, na Suma Teológica, não toma a formação do homem do barro da terra de modo redondamente literal. Embora defenda claramente a formação imediata do corpo do homem, em razão de sua substância, determinada pela alma, ele diz que o homem é formado dos quatro elementos (água, terra, ar e fogo). Os hebreus só conheciam os mais grosseiros como elementos. O ar e o fogo, que são mais sutis, estavam, porém, na matéria que formou o homem. A razão disso é que o homem é um microcosmo, um universo em miniatura, logo representa tudo o que há no macrocosmo, inclusive os anjos por sua parte espiritual. Donde podemos deduzir que o homem, sem sobrepujar a dignidade racional dos anjos, é, de certo modo, o ápice da criação. Em realidade, os anjos, em natureza e dignidade, em nada são menores do que o homem, mas eles não são um pequeno espelho da criação, como é o homem.

I ARTIGO: CRIAÇÃO 2 (PARTE 4 DE 4)

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A prova

Os seres espirituais, com inteligência e vontade, foram feitos à imagem de Deus, como dito anteriormente. Contudo, a Escritura atesta que foram criados também segundo Sua semelhança. Explicado já o sentido de ser feito «à imagem de Deus», há de se explicar o sentido de ser feito «segundo a semelhança de Deus».

Neste sentido, diz a Escritura:

Seremos semelhantes a Deus, porquanto O veremos como Ele é (I Jo 3,2).

Esta é a vocação a que são chamadas as criaturas espirituais: ver Deus como Ele é! Este é o dom sobrenatural (pois que ver Deus é um privilégio infinitamente imerecido por qualquer criatura) que Deus concedeu às suas criaturas mais perfeitas. Apesar dessa dádiva, Deus não confirmou Suas criaturas na graça. Continuar lendo

I ARTIGO: CRIAÇÃO 1 (PARTE 4 DE 4)

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No último texto nos detivemos em analisar a ação interna de Deus (ad intra); passaremos a analisar as ações divinas externas ou ad extra, para fora, como a criação, providência, Redenção… Neste texto, trataremos da criação.

Criar é fazer existir do nada, ou seja, sem nada preexistente. Por ser uma ação ad extra, a criação é um ato que tem por objeto as criaturas e, ipso facto, é obra das três Pessoas divinas conjuntamente porque tudo o que não diz respeito à íntima relação entre as Pessoas é comum às três simultaneamente. Continuar lendo