SACRAMENTO DA EUCARISTIA (PARTE 2 DE 2)

Consagração

Tendo já investigado os aspectos sacramentais da Eucaristia, passaremos neste texto a explicar seu segundo caráter: culto de sacrifício [1].

Sacrifício, como explicado anteriormente, é a destruição de algo (ou, para os racionais, humilhação de si e rebaixamento da vontade) oferecido a Deus a fim de reconhecer Seu Senhorio sobre tudo. É bem óbvio que o Sacrifício de Nosso Senhor na Cruz satisfaz plenamente essa definição. O que provaremos é que o Sacrifício Eucarístico não só satisfaz a definição, como é aquele mesmo Sacrifício que Nosso Senhor ofereceu no calvário [2].

O Sacrifício da Missa

A Santa Missa (ou Divina Liturgia, como chamado pelos orientais) é a atualização incruenta do Sacrifício de Nosso Senhor na Cruz do calvário [3]. Todos os sacrifícios da Antiga Aliança não eram mais que pálido símbolo desse único Sacrifício capaz de agradar e aplacar a Deus.

Para que se mantenha íntegra na Igreja Católica a antiga fé e doutrina do grande
mistério eucarístico, e, debelados os erros e heresias, se conserve em sua pureza (…) instruído pela ilustração do Espirito Santo (…) ensina, declara e determina no que segue o que deve ser pregado aos povos fiéis a respeito [da Eucaristia] enquanto é um verdadeiro e singular sacrifício (…) na Última Ceia, na noite em que ia ser entregue, querendo deixar à Igreja, Sua amada Esposa, como pede a natureza humana, um Sacrifício visível que representasse o Sacrifício cruento a realizar uma só vez na Cruz, e para que a Sua memória durasse até a consumação dos séculos e a sua salutar virtude fosse aplicada para remissão dos nossos pecados quotidianos, declarando-Se Sacerdote perpétuo segundo a ordem de Melquisedeque, ofereceu a Deus Pai o Seu Corpo e Sangue sob as espécies do pão e do vinho (Concílio de Trento, Sessão XXII, Denz. 937s, destaques nossos).

Abolidas as sombras vazias das vítimas carnais, confiastes-nos Seu Corpo e Sangue em Sacrifício, para que, em todo lugar, fosse oferecida ao Vosso Nome aquela Oblação pura, única capaz de Vos agradar. Neste mistério, pois, de inescrutável sabedoria e de imensa Caridade, aquilo mesmo que Ele uma vez na Cruz consumou, não cessa de miraculosamente operar: Ele próprio que Se oferece; Ele próprio, a oblação (Prefácio do Santíssimo Sacramento – galicano, destaques nossos).

Verdadeiro e eterno Pontífice e único Sacerdote sem a mácula do pecado, foi o primeiro a oferecer a Vós, como Vítima de expiação, o perene Sacrifício de Si, instituído na Última Ceia, ensinando a forma de repeti-lo (Prefácio da Ceia do Senhor, destaques nossos).

O mesmo atestam as Escrituras:

Tomou depois o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo: Bebei dele todos, porque isto é Meu Sangue, o Sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens em remissão dos pecados (Mt 26,27s).

Assim, a doutrina da Igreja, ratificada pela autoridade da Tradição e da Escritura, atesta que o Sacrifício da Cruz é o mesmo Sacrifício da Missa. Cabe-nos agora mostrar como um e outro são, em essência, o mesmo ato de culto e de reparação a Deus.

São próprios do sacrifício dois elementos: o sacerdote (o sacrificante) e a vítima. No Calvário, ambos são a mesma Pessoa, Nosso Senhor Jesus Cristo. Atesta a Sagrada Escritura:

Eu dou a Minha vida para a retomarNinguém a tira de Mim, mas Eu a dou de Mim mesmo e tenho o poder de a dar, como tenho o poder de a reassumir (Jo 10,17s).

Que Nosso Senhor é a Vítima Divina ninguém nega. Mas Ele não é apenas a Hóstia perfeita, mas também o Sacerdote pelo qual é oferecido o Sacrifício Santo. É precisamente isso que São João deixa claro na passagem acima.

É exatamente o mesmo ato que ocorre na Santa Missa. O ministro dos Sacramentos, como visto antes, age não em nome próprio — pois que de nada valeria o ato sacramental nesse caso — mas em nome de Nosso Senhor (in persona Christi). Assim, não é o sacerdote quem oferece a Missa, mas Nosso Senhor, através do sacerdote. Tem-se, então, no Sacrifício da Missa, o mesmo Sacerdote e a mesma Vítima que no Sacrifício do Calvário. Somente a Paixão de Nosso Senhor pode salvar o mundo e esse mesmo poder a Igreja, pela Liturgia, identifica os frutos da Missa:

Oferecemos a Vós, Senhor, o cálice salutar, implorando a Vossa clemência, para que ele possa ascender à presença da Vossa Divina Majestade com suave odor, pela nossa salvação e de todo o mundo (Rito Gregoriano ou Tridentino, oferecimento do vinho).

E isso que foi dito pode ser atestado pelo rito da Missa em si ─ onde ocorre a dupla consagração, como que separando o Corpo e o Sangue do Divino Cordeiro. Pode ser atestado, também, pelas palavras que Nosso Senhor usou (as quais são repetidas pelo sacerdote na Missa) [4].

Distinção entre o Calvário

Embora essencialmente idênticos, tanto o Sacrifício do Calvário como o Sacrifício da Missa guardam diferenças entre si. O mais flagrante é o modo de oferecer. O Sacrifício do Calvário foi oferecido de modo cruento, ou seja, com derramamento de sangue e dor; o Sacrifício do Altar, entretanto, de modo incruento:

Uma só e mesma é a Vítima, pois Quem agora Se oferece pelo ministério dos sacerdotes é o mesmo que então Se ofereceu na Cruz; só o modo de oferecer é diverso (Concílio de Trento, Sessão XXII, Denz. 940, destaques nossos).

Outra distinção é que a Cruz é um sacrifício absoluto — no dizer dos teólogos — porque ele é o ato mesmo em que Nosso Senhor realiza a Redenção da humanidade. O Altar, por sua vez, é também absoluto porque comporta uma oblação (ver a nota 4) e relativo porque faz referência ao Calvário. No Calvário Cristo mereceu por nós a Redenção; na Missa, os frutos dessa Redenção são aplicados.

Este Sacrifício incruento derrama, então, sobre nós os ubérrimos frutos do Sacrifício cruento (Catecismo Romano II-IV 76).

Efeitos do Sacrifício da Missa

A identidade entre o Sacrifício do Calvário e o do Altar não é somente porque na Missa temos um verdadeiro sacrifício de adoração, de agradecimento e súplica [5]. O Sacrifício da Missa é também verdadeiro e próprio sacrifício propiciatório, ou seja, tem por fim aplacar a ira divina, devida aos nossos pecados.

Basta que o Senhor Se torne presente sob as espécies de pão e vinho para que Deus, sentindo o odor daquele ato supremo de Caridade no Altar da Cruz, atualizado pelo ministério da Igreja, seja-nos propício, como diz o Catecismo Romano: “é tão agradável ao Senhor o perfume desta Vítima, que por Ela nos dá os dons da graça e da penitência e desta maneira nos perdoa os pecados” (Ibidem II-IV 76).

Ainda neste sentido a Liturgia igualmente confirma:

Concedei-nos, pedimos-Vos, Senhor, que dignamente frequentemos estes mistérios, pois todas as vezes celebramos a comemoração desta Vítima, executa-se a obra de nossa Redenção (Rito Gregoriano, Secreta do IX Domingo depois de Pentecostes).

Tal é o poder do Sacrifício da Missa que os efeitos de seus frutos se estendem às almas do Purgatório:

Recebei, Santo Pai, Deus onipotente e eterno, esta vítima propiciatória imaculada que eu, indigno servo vosso, ofereço a Vós, meu Deus vivo e verdadeiro, pelos meus inumeráveis pecados, ofensas e negligências; por todos os presentes e também por todos os fiéis cristãos vivos e defuntos: a fim de que, a mim e a eles, aproveite para a salvação na vida eterna (Rito Gregoriano ou Tridentino, oferecimento do pão).

Frutos da Missa

Os frutos da Missa podem ser classificados como: gerais ou universais, especiais e ministeriais.

Os gerais ou universais são os frutos derramados para toda a Igreja, ou seja, para a Igreja universal.

Primeiramente, oferecemos-Vos [os dons, as oferendas, os santos sacrifícios ilibados] pela vossa Igreja santa e católica: dignai-Vos pacificá-la, guardá-la, uni-la e regê-la por todo o orbe da terra (Rito Gregoriano, Canon da Missa).

Os especiais são os que redundam em benefício dos presentes, sobretudo os que cooperaram de algum modo na celebração do sacrifício, principalmente e pessoalmente o celebrante.

Recebei, Santo Pai, Deus onipotente e eterno, esta vítima propiciatória imaculada que eu, indigno servo vosso, ofereço a Vós, meu Deus vivo e verdadeiro, pelos meus inumeráveis pecados, ofensas e negligências; por todos os presentes (Rito Gregoriano ou Tridentino, oferecimento do pão).

Lembrai-Vos, Senhor (…) de todos os presentes, cuja fé Vos é conhecida e manifesta a devoção (Rito Gregoriano, Canon da Missa).

Os ministeriais, redundam da intenção particular determinada pelo celebrante, ou seja, por quem ou pelo que ele aplica a Missa [6].

Seja-Vos agradável, Trindade Santa, o obséquio da minha servidão; e fazei que o sacrifício que, aos olhos da vossa majestade, indigno, ofereci, seja-Vos aceitável e seja, por vossa misericórdia, a mim e a todos por quem o ofereci, propiciatório. Por Cristo Senhor nosso (Rito Gregoriano, oração Placeat tibi).

Os dois primeiros são completamente independentes da intenção do sacerdote, só os ministeriais podem ser aplicados por sua vontade.

*

Dito tudo isto acerca de tão sublime Sacramento e Culto sacrifical, é necessário expor algumas instruções de como se portar na assistência da Santa Missa. Em primeiro recorremos à Santa Mãe de Deus, como diz a Liturgia, stabat mater.

Devemos assistir à Missa do mesmo modo com que assistiram a agonia no Calvário a Santa Virgem, São João e Santa Maria Madalena (e a outra Maria, mulher de Cléofas). Deve-se estar modestamente vestidos, observar o silêncio e o recolhimento. Afirma São Leonardo de Porto Maurício no seu clássico espiritual As Excelências da Santa Missa:

Ora, dizei-me sinceramente se, quando ides à Igreja para assistir a Santa Missa, pensásseis bem que ides ao Calvário assistir à morte do Redentor, que diria alguém que vos visse aí chegar numa atitude tão pouco modesta? Se Maria Madalena fosse ao Calvário e se prostrasse aos pés da Cruz vestida, perfumada e ataviada como em seus tempos de desordem, quanto não seria censurada! E que se dirá de vós que ides à Santa Missa como se fôsseis a uma festa mundana? (Ibidem, p. 8, destaques nossos).

Eis o meio mais adequado para assistir com fruto à Santa Missa: consiste em irdes à Igreja como se fôsseis ao Calvário, e de vos comportardes, diante do altar, como o faríeis diante do trono de Deus, em companhia dos Santos Anjos. Vede, por conseguinte, que modéstia, que respeito, que recolhimento são necessários para receber o fruto e as graças” (Ibid. p. 41, destaques nossos).

“Entre os hebreus, enquanto se celebravam os sacrifícios da antiga Lei, nos quais se ofereciam apenas touros, cordeiros e outros animais, era coisa digna de admiração ver com quanto recolhimento, modéstia e silêncio o povo todo acompanhava. E, se bem que o número de assistentes fosse incalculável, além dos setecentos ministros que sacrificavam, parecia, no entanto, que o templo estava vazio, pois não se ouvia o menor ruído, nem um sopro. Ora, se havia tanto respeito e veneração por esses sacrifícios que afinal, não eram mais que uma sombra e figura do nosso, que silêncio, que atenção, que devoção não merece a Santa Missa, na qual o próprio Cordeiro Imaculado, o Verbo de Deus, se imola por nós?! (Ibid. p. 42, destaques nossos).

Ainda insiste o frade “[outra maneira de assistir à Santa Missa ] é a das pessoas que (…) durante todo o tempo do santo Sacrifício (…) com viva fé, fixam os olhos da alma em Jesus crucificado, e, apoiados na árvore da Cruz, dela recolhem os frutos por meio de doce contemplação. Passam todo esse tempo em piedoso recolhimento interior e na consideração dos sagrados mistérios da Paixão de Jesus Cristo, que são não somente representados, mas misticamente reproduzidos na Santa Missa” (Ib. p. 43, destaques nossos).

________________
Notas

[1] O sacrifício tem quatro finalidades: adorar (latrêutico), agradecer (eucarístico), suplicar (impetratório) e expiar (propiciatório).

[2] Mais sobre o sacrifício como ato de culto máximo a Deus pode ser lido aqui.

[3] Atualização não no sentido de inovação ou adequação, mas no sentido do mais puro aristotelismo: tornar ato, i.e., estar, agora, na posse de algo.

[4] Os teólogos discutem em que consiste de fato o Sacrifício da Missa, tendo formuladas algumas teorias ao longo dos séculos. Abaixo um resumo feito por Bartmann em Teologia dogmática 3:

  1. Aniquilamento da substância do pão e do vinho (Suárez) → o problema dessa teoria está no fato que o sacrifício seria das substâncias do pão e vinho.
  2. Fração do pão → o problema dessa teoria está que a fração é um ato acidental.
  3. Comunhão (São Roberto Belarmino) → o problema dessa teoria está no fato de que o Sacrifício se repetiria todas as vezes que um fiel comungasse, mesmo fora da Missa, como o viático dos doentes.
  4. Estar em estado de comida ─ in statu cibi (Lugo) → o problema dessa teoria é denunciado pelo Tridentino: “Se alguém disser que na Missa (…) ou que o oferecer não é mais do que nos dar Cristo por alimento: seja anátema” (Concílio de Trento, Sessão XXII, Denz. 948).
  5. Suspensão da vida sensitiva (Cienfuegos) ou reduzida ao → o problema dessa teoria está no fato de que Nosso Senhor está ressurrecto e portanto goza total e plenamente dos atributos do corpo glorioso entre os quais está a impassibilidade.
  6. Separação real [do Corpo e do Sangue] pela forma (Lessio) → o problema dessa teoria é o mesmo que o item anterior, ou seja, Nosso Senhor ressurrecto não pode mais ter Seu Corpo e Sangue separados (motivo pelo qual o Sacrifício da Missa é incruento).
  7. Redução e contenção ao pão e vinho (Franzelino) → nesa teoria Cristo estando debaixo das espécies de pão e vinho se torna passivo, invisível, mudo e paralisado; está equivalente à morte. Mas como no item 5, Ele não pode morrer e a mera equivalência não é suficiente para ser a essência do Sacrifício.
  8. Separação mística [do Corpo e do Sangue] e reprodução da vontade de amor e obediência da Paixão (Thalhofer).
  9. Ato interior da vontade de amor e obediência, sendo a efusão do sangue apenas um acidente exterior (Pell).

Bartmann e Boulenger parecem corroborar com os itens 8 e 9, assim como a doutrina da Igreja: a essência, portanto, da Missa é a separação mística do Corpo e Sangue de Cristo, através da dupla consagração, e atualização da vontade de amor e obediência da Paixão, sendo o oferecimento cruento apenas acidental (como afirma o Concílio de Trento). A Liturgia confirma essa interpretação:

Senhor, em união com aquela divina intenção com a qual, na terra, destes louvor a Deus, ofereço-Vos estas Horas (Rito Gregoriano, oração para antes do Ofício Divino).

Por fim, em qual momento tudo isso ocorre? São Roberto e Santo Afonso dizem que é na consagração e na comunhão do sacerdote. A maioria dos teólogos, entretanto, diz ser a consagração a parte essencial e a comunhão do sacerdote parte integrante e complementar (cf. Ex 12,1ss).

[5] São os fins do sacrifício aludidos na nota 1.

[6] O Direito da Igreja permite apenas uma intenção por Missa, configurando, pois, abuso as Missas com inúmeras intenções. Isso ocorre porque, apesar de Missa ter valor infinito, já que é o Sacrifício de Nosso Senhor, essas aplicações são devidas ao celebrante tendo eficácia dependente de seus méritos pessoais e, portanto, limitada.

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