IV ARTIGO: REDENÇÃO

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Neste artigo, afirma o Símbolo: “[Cristo] padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado”. A Redenção Vicária é o mistério pelo qual Nosso Senhor Jesus Cristo, oferecendo-Se em Sacrifício expiatório, dá a Deus toda satisfação condigna pelos pecados.

Sacrifício é a destruição de algo (ou, para os racionais, humilhação de si e rebaixamento da vontade – oblação) oferecido a Deus a fim de reconhecer Seu Senhorio sobre tudo. É o culto perfeito a Deus.

Esse Sacrifício foi a entrega livre de Sua vida, “Eu dou Minha vida de Mim mesmo” (Jo 10,17s). Cristo morreu para redimir todo o universo, que se degenerou com o pecado do homem:

O Pai quis por Seu intermédio [de Cristo] reconciliar conSigo todas as criaturas, por intermédio dAquele que, ao preço do próprio Sangue na Cruz, restabeleceu a paz a tudo quanto existe na terra e nos céus (Cl 1,20).

O amor de Cristo nos constrange, considerando que, se um só morreu por todos, logo todos morreram. Sim, Ele morreu por todos, a fim de que os que vivem já não vivam para si, mas para Aquele que por eles morreu e ressurgiu (II Cor 5,14s).

Seu Sacrifício foi único e apenas ele é suficiente para remir os pecados (contrariando a heresia espírita):

Morto, Ele o foi uma vez por todas pelo pecado; porém, está vivo, continua vivo para Deus! (Rm 6,10).

Ele nos arrancou do poder das trevas e nos introduziu no Reino de Seu Filho muito amado, em Quem temos a Redenção, a remissão dos pecados (Cl 1,13s).

A morte de Cristo, no entanto, é apenas enquanto homem, pois enquanto Deus não pode nem sofrer nem morrer. Sofreu não enquanto Deus, mas como se Deus não fora ao mesmo tempo.

A fim de atestar a historicidade e veracidade desse fato, a Igreja afirma “sob Pôncio Pilatos”. Assim, é possível verificar a data do acontecimento mais importante da história da humanidade; também para mostrar que a predição de Nosso Senhor, que seria entregue aos gentios, se cumprira: “E O entregarão aos pagãos para ser exposto às suas zombarias, açoitado e crucificado” (Mt 20,19).

Portanto, para se satisfazer à justiça divina cuja majestade foi ultrajada pela desobediência da humanidade, o homem deveria padecer, como está escrito: “Vossa sentença [de morte] assim se manifesta justa, e reto o Vosso julgamento” (Sl 50,6b). Mas mesmo a morte de todos os homens, ou melhor, do mais justo dos homens poderia remir sequer um pecado, pois que sua ofensa é infinita.

Santo Tomás explica que um ato pode ser infinito pelo sujeito ou pelo objeto [1]. Ora, o pecado não é um ato infinito pelo sujeito, que é o homem, mas pelo objeto, pois é contra Deus que pecamos, como diz o salmista: “Só contra Vós pequei, o que é mau fiz diante de Vós” (Sl 50,6a).

Diante da doutrina do Aquinate, deduz-se que não bastaria que viesse um Anjo satisfazer por nós, porque nem mesmo ele poderia oferecer um sacrifício infinito. Para satisfazer a Deus, era necessário merecimento de valor infinito, porque a majestade de Deus, ofendida pelo pecado, é infinita.

Por essa razão, Deus, infinitamente justo e sábio, para Lhe aplacar a ira, decretou que o Salvador fosse verdadeiro Deus e verdadeiro homem: Nosso Senhor Jesus Cristo.

Deus, para que os Seus sofrimentos fossem de valor infinito e condigno ao pecado, ou melhor, infinitamente maior e superabundante:

Onde abundou o pecado, superabundou a graça (…) por meio de Jesus Cristo, Nosso Senhor (Rm 5,20s).

Homem para poder padecer e morrer e assim remir o homem.

Embora pudesse morrer enquanto homem, por ser verdadeiro Deus, tinha total e completo domínio sobre Sua vida:

O Pai Me ama, porque dou a Minha vida para a retomar. Ninguém a tira de Mim, mas Eu a dou de Mim mesmo e tenho o poder de a dar, como tenho o poder de a reassumir (Jo 10,17s).

Ninguém poderia lhe fazer mal, se assim não quisesse, como está escrito:

Tu que habitas sob a proteção do Altíssimo, que moras à sombra do Onipotente, dize ao Senhor: Sois meu refúgio e minha cidadela, meu Deus, em Quem Eu confio. É Ele quem Te livrará do laço do caçador, e da peste perniciosa. Ele Te cobrirá com Suas plumas, sob suas asas encontrarás refúgio. Sua Verdade Te será um escudo de proteção. Tu não temerás os terrores noturnos, nem a flecha que voa à luz do dia, nem a peste que se propaga nas trevas, nem o demônio que grassa ao meio-dia. Caiam mil homens à tua esquerda e dez mil à tua direita, Tu não serás atingido. Porém verás com teus próprios olhos, contemplarás o castigo dos pecadores, porque o Senhor é Teu refúgio. Escolheste, por asilo, o Altíssimo. Nenhum mal Te atingirá, nenhum flagelo chegará à tua tenda, porque aos Seus Anjos Ele mandou que Te guardem em todos os teus caminhos. Eles Te sustentarão em suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra. Sobre serpente e víbora andarás, calcarás aos pés o leão e o dragão. Pois que se uniu a Mim, Eu O livrarei; e O protegerei, pois conhece o Meu Nome. Quando Me invocar, eu O atenderei; na tribulação estarei com Ele. Hei de livrá-lO e O cobrirei de glória. Será favorecido de longos dias, e mostrar-Lhe-ei a minha salvação (Sl 90).

A estas palavras, encheram-se todos de cólera na sinagoga. Levantaram-se e lançaram-nO fora da cidade; e conduziram-nO até o alto do monte sobre o qual estava construída a sua cidade, e queriam precipitá-lO dali abaixo. Ele, porém, passou por entre eles e retirou-Se (Lc 4,28-30).

A essas palavras, pegaram então em pedras para Lhas atirar. Jesus, porém, Se ocultou e saiu do templo (Jo 8,59).

Portanto, Cristo quis morrer:

Foi imolado porque Ele próprio o quis. Eu O feri por causa da maldade do meu povo (Is 53,7.8).

E Eu, qual manso cordeiro conduzido à matança, ignorava as maquinações tramadas contra Mim: destruamos a árvore em seu vigor. Arranquemo-la da terra dos vivos, e que Seu Nome caia no esquecimento (Jr 11,19).

E, avistando Jesus que ia passando, disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (Jo 1,36).

Mas aprouve ao Senhor esmagá-lO pelo sofrimento. Quando tiver sacrificado Sua vida pelo pecado, verá uma longa posteridade (Is 53,10).

Quando os judeus O quiseram matar apedrejado, Ele recusou a morte e não O puderam matar (cf. Lc 4,28ss e Jo 8,59, já citados), porque quis morrer pelos gentios (cf. Mt 20,19, já citado) e crucificado “para que de onde viera a morte, daí ressurgisse a vida; e aquele que no lenho vencera, no lenho fosse vencido, por Cristo Senhor nosso” (Prefácio da santa Cruz).

Santo Tomás novamente ensina que era necessário a morte de Cristo; mas distingue dois modos de necessidade: o indispensável e o conveniente. Assim, o alimento é necessário (indispensável) à conservação da vida humana; e de outro modo, o automóvel é necessário (conveniente) para viajar. De acordo com esse ensinamento, Nosso Senhor não tinha que sofrer, qui-lo, contudo, pois era necessário, ou seja, conveniente, para que:

  1. o pecado tivesse satisfação infinitamente superior;
  2. nos ficasse mais claro o horror do pecado e assim nos inspirasse ódio a todos os atos de desobediência;
  3. mais claramente nos evidenciasse Sua Caridade por nós e nosso preço diante de Seus olhos e rejeitássemos a escravidão do diabo pelo pecado.

Os sofrimentos de Cristo:

  • todo o Seu Corpo foi cruelmente ferido: a cabeça, com a dura coroa de espinhos; as mãos e os pés com os grossos cravos; o rosto com os infames bofetões e cusparadas; o restante do corpo, com a cruel flagelação;
  • sofreu por todos os sentidos corporais: no paladar, com o fel e o vinagre que Lhe deram; no olfato, porque o Gólgota era um lugar de caveiras; na audição, pelas blasfêmias e escárnios; na visão, por ver, principalmente, Sua amantíssima Mãe a chorar e sofrer.

Padeceu tudo aquilo que o homem pode sofrer e mais que qualquer homem poderia suportar:

Olhai e julgai se existe dor igual à dor que Me atormenta (Is 1,2).

Meu Coração recebeu ultrajes e miséria; esperei debalde quem tivesse compaixão de Mim; procurei quem Me consolasse, e não encontrei (Sl 68,21).

Foi a maior dor que alguma vez houve, explica-nos o Doutor angélico:

  • por causa das dores que foi acerbíssima e pela generalidade;
  • Seu Corpo era sensível, pois era perfeito, obra ótima do Espírito Santo;
  • igualmente Sua Alma, por ser perfeita, apreendia de modo extremo todas as causas de tristeza;
  • pela natureza da dor, pois os que sofrem podem mitigar a dor por considerações da mente; ao contrário, entretanto, Cristo não o quis;
  • Por ser uma dor voluntária, Cristo quis sofrer tanto quanto Ele pudesse e proporcional ao fruto que daí surgiria.

Não era absolutamente necessário, repetimos, que Ele padecesse tanto, porque o menor dos Seus sofrimentos bastaria para a nossa redenção, pois cada um dos Seus atos era de valor infinito: o Sangue derramado pela Circuncisão, ou mesmo o ato da Encarnação seriam necessários; ou melhor, como dissemos, tudo isso foi apenas conveniente, poderia deu nos salvar por mero decreto de Sua vontade. Essas considerações, pois, mostram-nos a infinita Caridade com que Ele nos ama.

Morreu quando quis, pois é Senhor da vida:

Havendo Jesus tomado do vinagre, disse: ‘Tudo está consumado’. Inclinou a cabeça e entregou o Espírito (Jo 19,30).

Jesus deu então um grande brado e disse: ‘Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito’. E, dizendo isso, expirou (Lc 23,46).

Tudo o que foi dito faz referência à Redenção [vicária] objetiva. Os sinais do mundo, quando à morte de Jesus.

É necessária para salvação aquilo que os teólogos chamam de redenção subjetiva. Para a salvação, não basta que Nosso Senhor tenha morrido por nós, mas é necessário que sejam aplicados, a cada um de nós, o fruto e os merecimentos da Sua dolorosa Paixão e Morte. Aplicação que se faz, sobretudo, por meios dos Sacramentos, instituídos para este fim pelo mesmo Jesus Cristo; e como muitos ou não recebem os Sacramentos, ou não os recebem com as condições devidas, eles tornam inútil para si próprios a Morte de Nosso Senhor [2].

*

Heresias acerca da Redenção

  • Orígenes (séc. II) dizia que Cristo salvaria também o demônio. Por essa razão foi escrito no Símbolo: “E por nós, homens, e para nossa salvação”.

Voltar-se-á em seguida para os da Sua esquerda e lhes dirá: Retirai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno destinado ao demônio e aos seus anjos (Mt 25,41).

  • Nestório afirmava que em Cristo havia duas pessoas, como já foi visto.
  • Pelagianismo (de Pelágio, séc. IV) assim como o espiritismo que negam a necessidade da Redenção vicária, pregando que o homem pode se salvar por merecimento próprio.
  • Luteranismo (séc. XVI) que nega a necessidade da redenção subjetiva, ou seja, dos Sacramentos e do cumprimento dos Mandamentos, fazendo o homem certo de sua salvação, o que resulta problemas morais e ascéticos evidentes.
  • Mistério pascal (séc. XX), doutrina da nova teologia que põe em relevo a salvação na Ressurreição de Cristo e não em Seu Sacrifício cruento na Cruz, contrariando as Escrituras que dizem [3]:

Tudo está consumado. Inclinou a cabeça e entregou o Espírito (Jo 19,30).

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Notas

[1] Como está se tratando de ato, evidentemente, quando o sujeito é infinito, seu ato é mais que infinito, pelo que se diz superabundante porque ultrapassa o ato a ser compensado.

[2] O próprio Cristo compara a salvação com uma festa de bodas, em que se exige as vestes nupciais. A criação do homem é o próprio convite às bodas; a Fé é o conhecimento de qual traje se deve vestir para as bodas; a Redenção objetiva é o próprio traje, que o anfitrião fez para os convivas; a redenção subjetiva é o esforço mínimo que os convidados têm de fazer de querer vestir o traje (conhecido pela Fé e costurado pela Cruz do Senhor) através dos Sacramentos e da obediência à Lei do Decálogo.

[3] No futuro faremos um texto sobre esse tema.

 

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