O MISTÉRIO PASCAL É UMA DOUTRINA NOVA?

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Entende-se, modernamente, por mistério pascal aquela ideia de que a Morte, Ressurreição e Ascensão de Nosso Senhor estão tão intimamente ligadas que a obra da Redenção foi operada por esses três fatos — apenas distintos temporalmente — passando a ser o principal mistério da Fé [1].

A última parte dessa doutrina moderna é facilmente rejeitada porque o catecismo ensina explicitamente que os principais mistérios da Fé, além da Santíssima Trindade de Deus, é a Encarnação, Paixão e Morte de Cristo, i.e., a Redenção. Não há, como se pode constatar, referência à Ressurreição.

Desse modo, seguiremos no texto o seguinte esquema:

  • maior aprofundamento no que é a doutrina do mistério pascal;
  • a exposição da doutrina católica, embasando-a nos Santos Doutores;
  • as infelizes consequências do mistério pascal.

1 Doutrina do mistério pascal

Como dito anteriormente, o mistério pascal é um novo enfoque na Redenção, colocando agora a supremacia desse mistério na Ressurreição de Cristo. Para essa doutrina, a Ressurreição é a causa e consumação da salvação dos homens.

A novidade pode ser demonstrada pelos próprios autores da tese, ratificada pela Instrução Inter œcumenici (1964) a qual dá o norte da reforma litúrgica (baseando-se no Concílio Vaticano II):

Todas as mudanças introduzidas até o presente na liturgia e todas as que serão feitas no futuro não têm outra finalidade e não ser traduzir na liturgia o mistério pascal (§5, destaques nossos).

A Liturgia praticada quase que bimilenarmente na Igreja Romana não apresenta, para os reformistas, a doutrina do mistério pascal, dada, obviamente, a sua novidade, como também comprova João Paulo II [2]:

Com efeito, a amplitude e a profundidade dos ensinamentos do Concílio Vaticano II requerem um renovado empenho de aprofundamento, no qual se ponha em relevo a continuidade do Concilio com a Tradição, de modo especial nos pontos de doutrina que, talvez pela sua novidade, ainda não foram bem compreendidos por alguns sectores da Igreja (Carta Apostólica Ecclesia Dei, 1988, destaques nossos).

O padre Roguet, membro da comissão de reforma e um dos precursores dessa teologia, sustenta que a doutrina tradicional da Redenção é um problema a se resolver porque na concepção de pecado há a ideia de ultraje infinito feito a Deus o qual gera uma dívida de justiça do homem para com Ele [3] (cf. artigo Qué es el misterio pascual, publicado pelo Centro de Pastoral Litúrgica de Paris em 1967).

No mesmo sentido o jesuíta Yves de Montcheuil, teólogo e amigo de Henri de Lubac, afirma, contra a doutrina católica, já em 1949: “O pecado tem dimensão infinita porque destrói no homem algo que ele sozinho não pode recuperar. Mas de modo algum causa qualquer prejuízo a Deus [4]” (Leçons sur le Christ, destaques nossos).

Pelo mistério pascal, portanto, a salvação do homem não é realizada pela satisfação do pecado, mas pela revelação do amor de Deus, sendo ela atribuída mais a Deus Pai que ao Verbo encarnado:

A fé cristã na redenção é, acima de tudo, fé em Deus. Em Jesus Cristo, seu próprio e único Filho encarnado, “o único que os homens chamam de Deus” [ou seja Deus Pai], revela-se revelando-se como o único verdadeiro Salvador em quem todos podem confiar (Comissão Teológica Internacional, Cuestiones selectas sobre Dios redentor IV, 14, destaques nossos).

O pecado, desse modo, não é uma injúria feita a Deus, senão, com o teólogo franciscano Adalbert Hamman (também membro da comissão de reforma), uma injúria contra a natureza do homem porque não corresponde ao amor divino (cf. La Rédemption et l’Histoire du monde). Nesse mesmo sentido ensina o novo catecismo:

O pecado é uma falta contra a razão, a verdade, a recta consciência. É uma falha contra o verdadeiro amor para com Deus e para com o próximo, por causa dum apego perverso a certos bens. Fere a natureza do homem e atenta contra a solidariedade humana (…) Por esta exaltação orgulhosa de si mesmo, o pecado é diametralmente oposto à obediência de Jesus, que realizou a salvação (Catecismo da Igreja Católica, 1849-50, destaques nossos).

A obediência e o Sacrifício de Nosso Senhor torna-se exemplo de conduta para nós e não mais causa de satisfação pelos pecados. Resta, portanto, um questionamento: no conjunto da nova doutrina, qual o propósito da Morte de Cristo? A resposta é dada pelo teólogo alemão Meinrad Limbeck:

Não deveríamos nos enganar: mesmo que estejamos acostumados a atribuir à morte de cruz de Jesus um sentido profundo e divino, influenciados pelo anúncio do cristianismo primitivo, tal pensamento era algo estranho para o próprio Jesus. A morte que possivelmente Ele tinha que sofrer foi algo que seus adversários quiseram. O fato de que Ele não pôde evitá-la é algo que tem a ver com sua mensagem, e não com os pecados do ser humano (Adeus à morte sacrifical, destaques nossos).

Sendo exposta toda a doutrina do mistério pascal, assim como demostrada sua novidade no âmbito teológico, passemos ao que ensina a doutrina católica.

1.1 A doutrina em sentido contrário

Citamos já o catecismo a respeito da Redenção que foi operada pelo Sacrifício de Nosso Senhor na Cruz.

Havendo Jesus tomado do vinagre, disse: Tudo está consumado. Inclinou a cabeça e rendeu o espírito (Jo 19,30).

O que é totalmente concorde com a Liturgia:

Cristo é imolado; Ele, com efeito, é o verdadeiro Cordeiro que retirou os pecados do mundo. Que a nossa morte, ao morrer, destruiu; e a vida, ao ressurgir, reparou (Rito Gregoriano, Prefácio da Páscoa, destaques nossos).

O que destruiu a morte, paga do pecado (cf. ICor 15,56), foi o Sacrifício de Cristo. Isso, entretanto, não significa que a Ressurreição é desnecessária, o que seria uma afirmação absurda: “Tudo o que sofreu a humanidade de Cristo se ordenava à nossa salvação. Ora, bastava à nossa salvação a Paixão de Cristo, pela qual fomos livres da pena e da culpa” (cf. S.T., III, q. 53, a. 1, obj. 3).

Ao que Santo Tomás responde:

A Paixão de Cristo obrou a nossa salvação propriamente falando, quanto à libertação dos males; mas a Ressurreição foi o começo e o penhor dos bens (S.T., III, q. 53, a. 1, sol. 3, destaques nossos).

Toda a vida de Cristo corrobora para redimir a humanidade, mas o ponto culminante e sem o qual não haveria uma satisfação superabundante é Seu Sacrifício na Cruz:

Ele [Cristo] sofreu a morte por nossa salvação, desceu aos infernos e ao terceiro dia ressuscitou dos mortos (Símbolo Quicumque).

A Redenção da humanidade foi mediante o Sacrifício da Cruz. Necessária era a morte, forçoso advir para todos, a fim de que a dívida comum fosse saldada. Ora, conforme disse, o Verbo, na impossibilidade de morrer – era imortal -, assumiu um Corpo capaz de morrer, a fim de por todos oferecer o que Lhe era próprio, e através dos padecimentos por todos em Sua Encarnação, reduzir a nada o dominador da morte, o Diabo, e libertar os que passaram toda a vida em estado de servidão, pelo temor da morte. (…) Não existia modo melhor de operar a salvação do mundo que a Cruz (Santo Atanásio, séc. IV, A Encarnação do Verbo, 20,5s, destaques nossos).

Com efeito, se Ele não ressuscitou, é porque não morreu; se não morreu, não apagou o pecado, porque Sua Morte é a abolição do pecado, segundo foi dito: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. De que modo tira? Pela morte. Foi chamado Cordeiro, porque imolado (São João Crisóstomo, séc. IV, Comentários à Primeira Cartas aos Coríntios, destaques nossos).

Em resumo, é possível afirmar que só a Morte de Cristo é causa meritória para nos ganhar as graças necessárias para salvação. A Sua Ressurreição é, pois, o início e a promessa de um bem para os fiéis [5] a qual é coroada na Sua Ascensão aos céus, pois “elevou-Se ao céu, para nos tornar participantes da Sua Divindade” (Rito Gregoriano, Prefácio da Ascensão).

Essa é a doutrina católica exposta pela Tradição através da Liturgia, pelos Padres e Doutores. Entretanto, reconhecemos que certas passagens da Escritura, à primeira análise, pode induzir o incauto ao erro revisionista da nova teologia do mistério pascal. Reproduzimo-las abaixo e daremos a interpretação da Igreja a esse respeito.

Jesus, Nosso Senhor, que foi entregue por nossos pecados e ressuscitado para a nossa justificação (Rm 4,25).

Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé. Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa Fé (…) Pois, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, é inútil a vossa Fé, e ainda estais em vossos pecados (I Cor 15,13s.16-17).

2 A legítima interpretação

A doutrina já exposta não torna mais fácil a interpretação das passagens bíblicas que supostamente apoiam a ideia central do mistério pascal. Por isso há a obrigação de apresentar o entendimento da Igreja sobre elas e mostrar a perfeita harmonia entre a Fé e os textos sagrados.

As dificuldades são as seguintes: Cristo ressuscitou para nossa justificação e sem essa Ressurreição nossa Fé é vã e ainda estamos em nossos pecados. Como não vê ai a ideia do mistério pascal, revelando negligência da teologia tradicional [6]?

Comecemos a resposta católica com o ensino do Aquinate:

Era necessário que Cristo ressurgisse, por cinco razões.
Primeiro para a manifestação da divina justiça, a qual compete exaltar aos que se humilham por amor de Deus, segundo aquilo do Evangelho: Depôs do trono os poderosos e elevou os humildes. Tendo, pois, Cristo, levado da Caridade e da obediência, Se humilhado até à Morte da Cruz, importava fosse exaltado por Deus até a Ressurreição gloriosa. Por isso a Escritura diz, da Sua Pessoa: Tu Me conheceste, isto é, aprovaste ao assentar-Me, isto é, a glorificação na ressurreição, como o interpreta a Glosa.
Segundo, para ilustração da nossa Fé. Pois, a Sua Ressurreição confirmou a nossa Fé na divindade de Cristo; porque, como diz o Apóstolo, ainda que foi crucificado por enfermidade, vive todavia pelo poder de Deus. Donde o dizer ainda o Apóstolo: Se Cristo não ressuscitou é vã a nossa pregação, é também vã a nossa fé. E noutro lugar diz a Escritura: Que proveito há no meu sangue, i. é, na efusão do meu sangue, se desço à corrupção, como que por degraus de males? Quase se respondesse: Nenhum. Pois, se não ressurgir logo e se me corromper o corpo, a ninguém anunciarei, a ninguém serei de proveito, como expõe a Glosa.
Terceiro, para sustentar a nossa esperança. Pois, vendo Cristo ressurgir, Ele que é nossa cabeça, esperamos que também havemos de ressurgir. Donde o dizer do Apóstolo: Se se prega que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como dizem alguns entre vós outros que não há ressurreição de mortos? E noutro lugar da Escritura: Eu sei, isto é, pela certeza da fé, que o meu Redentor, isto é, Cristo vive, tendo ressurgido dos mortos, e portanto, eu no derradeiro dia surgirei da terra: esta minha esperança esta depositada no meu peito.
Quarto, para nos dar um modelo pelo qual possamos regular a nossa vida, segundo aquilo do Apóstolo: Como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Padre, assim também nós andemos em novidade de vida. E mais abaixo: Tendo Cristo ressurgido dos mortos, já não morre nem a morte terá sobre ele mais domínio; assim também vós considerai-vos que estais certamente mortos ao pecado, porém vivos para Deus.
Quinto, para aperfeiçoamento da nossa salvação. Pois, assim como sofreu tantos males e morreu, para dos males nos livrar, assim também foi glorificado ressurgindo, para nos dar a posse do bem, segundo aquilo do Apóstolo: Foi entregue por nossos pecados ressuscitou para nossa justificação (S.T., III, q. 53, a. 1, resp., negritos nossos).

A segunda razão apresentada por Santo Tomás é da confirmação da Fé; Fé esta na divindade de Cristo. Se Ele não pudesse ressurgir dos mortos, não seria Deus e Seu Sacrifício de nada valeria, como diz o salmista: “Que proveito há no meu sangue, se desço à corrupção?” (Sl 29,10). Por isso em outra parte responde Deus Nosso Senhor: “Vós não abandonareis minha alma no inferno, nem permitireis que Vosso Santo conheça a corrupção” (Sl 15,10).

Em outras palavras, que proveito há no sacrifício de um mero homem (descer à corrupção)? Ainda estaríamos na miséria do pecado. Então para manifestar que Nosso Senhor não é apenas um homem, mas o Verbo feito homem, quis Ele ressuscitar e assim mostrar-nos que Ele é Deus e que Seu Sacrifício é redentor e vicário.

A quinta razão apontada na Suma diz que a Ressurreição foi o complemento da salvação, ou seja, uma consequência da obra da Redenção que foi operada, como já vimos, na Cruz. Ideia semelhante é-nos apresentada no Prefácio da Páscoa: «por Sua Ressurreição [de Cristo] restaurou a nossa vida».

Ainda neste sentido explica Tomaz Pègues que a relação da Ressurreição do Senhor conosco é “orientar e conformar a nossa vida transformada em ressurreição espiritual, como a de Jesus ressuscitado e para que o Redentor desse manifestações, em Sua própria Pessoa, dos maravilhosos dotes da vida gloriosa, a que nos destina e que começou com a Sua Ressurreição” (cf. A Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino em forma de catecismo, destaques nossos).

A perícope da Epístola aos Romanos foi usada por Santo Tomás nessa explicação, dando-lhe o verdadeiro sentido e interpretação. Contudo, julgamos ser ela o mais forte argumento que dá sustento para o mistério pascal. Desse modo, daremos mais explicações acerca dela.

Para sancionar os argumentos apresentados, dos comentários do frei Haydock (e de Calmet) sobre esse trecho das Escrituras:

O Pai Eterno entregou Seu Filho à morte, para expiar nossas ofensas; ressuscitando-O dos mortos para nossa justificação. Sua morte é nossa Redenção; Sua Ressurreição é o principal objeto da nossa Fé. Nossa Fé na Ressurreição, é imputada a justiça, como a Fé de Abraão nas promessas de Deus. O Apóstolo aqui parece referir-se a nossa Fé e justificação só para a Ressurreição, não excluindo os outros mistérios da religião, que são, todos e cada um deles, objetos de nossa Fé. Mas a Ressurreição é, por assim dizer, o zelo e a consumação de tudo; inclui eminentemente em si todos os outros (Destaques nossos).

Ainda São João Crisóstomo:

A Ressurreição nos justifica pela Fé que inspira, pois mostra que Ele morreu sendo inocente. Se Ele ressuscitou, é claro que não era pecador, mas foi crucificado em prol dos homens. Como podemos ser justificados? Na palavra da Fé que justificou também Abraão, na Fé acerca da salutar Paixão, que nos libertou dos pecados. Ao falar de Sua Morte, fala igualmente da Ressurreição, pois Ele não morreu para nos fazer réus condenados, mas em vista de prestar benefícios que são a justiça da ressurreição (Comentários à Carta aos Romanos, destaques nossos).

Santo Agostinho nos Comentários aos Salmos (120,4):

Que muito crermos que Cristo morreu? Também os pagãos, os judeus e todos os demais o acreditam. Todos creem que Ele morreu. A [característica] dos cristãos é a Ressurreição de Cristo (Apud Catecismo Romano I-VI 11, destaques nossos).

O Catecismo de São Pio X ensina que Nosso Senhor Jesus Cristo quis demorar até ao terceiro dia para ressuscitar, a fim de mostrar de modo insofismável que verdadeiramente tinha morrido. Santo Tomás, e o Catecismo Romano o repete, afirma que Cristo não passou menos tempo no sepulcro para que se não houvesse dúvidas quanto à realidade de Sua morte; não passou mais tempo para provar que é Deus e, portanto, Seus discípulos não desesperassem e perdessem a Fé (cf. S.T., III, q. 53, a. 2, resp.).

Cornélio a Lápide também segue o mesmo raciocínio:

O que certamente se segue é que, se Cristo não ressuscitou, nós ainda estamos em nossos pecados; pois:
1. Se Cristo, portanto a Fé no Cristo ressurreto, que é a base da justificação, é falsa; uma falsa fé não pode ser o início e a fundação da remissão dos pecados e da verdadeira santificação.
2. Se Cristo continua morto, Ele foi vencido pela morte, e Sua Morte foi ineficaz para a remissão de pecados; pois se por Sua ressurreição Ele não vence a morte, então Ele não pode vencer o pecado, pois essa é a tarefa mais árdua e complicada: vencer o pecado do que vencer a morte (Comentário à primeira Epístola ao Coríntios, destaques nossos).

Por isso a crença na Ressurreição de Nosso Senhor justifica, porque é indicativo da Fé, exórdio da justificação e sem a qual não se agrada a Deus nem se pode salvar. Pois quando os judeus pediram a Nosso Senhor que confirmasse Sua doutrina com algum sinal ou prodígio, Ele respondeu que nenhum outro sinal lhes seria dado senão o sinal de Jonas, clara referência à Sua Ressurreição. Ela é o fato distintivo entre crentes e incrédulos porque também é prova do poder divino, como dizem Santo Atanásio e São João Crisóstomo:

Se alguém recusasse crer na Ressurreição do Corpo do Senhor, mostraria ignorar o poder do Verbo, da Sabedoria de Deus (A Encarnação do Verbo, destaques nossos).

Se, porém, não ressuscitou, também não foi imolado; se não foi imolado, o pecado não foi tirado; se não foi tirado, ainda estais nele; se nele estais, é vã a nossa pregação, em vão acreditastes. Aliás, a morte permanece imortal, se Ele não ressuscitou. Se também Ele foi detido pela morte, e não dissolveu suas dores, como libertou os demais, estando ainda detido? (Comentários à Primeira Cartas aos Coríntios, destaques nossos).

Não é a Ressurreição, mas é ter o poder de Se ressuscitar ou não. Entretanto, como não é suficiente dizer que tem poder para ressurgir, Ele mesmo quis fazê-lo três dias após Sua Morte para provar definitivamente Sua divindade.

3 Frutos do mistério pascal

O mundo moderno rejeita a ideia de sacrifício e de dever heroico, por isso outra doutrina acerca da Redenção e do pecado deveria ser criada. Com isso essa nova teologia foi o norte das modificações litúrgicas recentes, como foi analisado nesse artigo.

Tendo em vista a tese do mistério pascal e sua influência na reforma da Liturgia operada nos anos 60 não é de se admirar que a Missa agora renove não o Sacrifício de Cristo, mas Sua Ressurreição. No rito novo, em todos os pontos em que no Rito Tradicional ressalta o sacrifício expiatório, houve a parcial ou total eliminação do caráter propiciatório.

Para citar algumas modificações e adaptações dos textos da Missa para o mistério pascal:

  • a cruz dá lugar a à imagem do Cristo ressuscitado;
  • o Altar se transforma numa mesa;
  • os ricos textos do Ofertório, que revelam o caráter propiciatório da Missa, são completamente substituídos por textos de ação de graças de banquete;
  • outras orações que revelam a dimensão sacrifical da Missa, como as Secretas, são mudadas.

As consequência de todas essas mudanças, sejam ideológicas ou litúrgicas, faz com que os fiéis percam a importância espiritual do Sacrifício da Missa:

É verdade que nós dançamos após a celebração, porque a Eucaristia é uma festa (Carmem, O Querigma).

Essas e outras mudanças que podem ser aprofundadas nos seguintes textos a inferioridade ritual (outro texto aqui) ou a proximidade com o culto protestante e outros problemas que induzem a ideias contrárias à ortodoxia da Fé.

4 Conclusão

Iniciamos este texto definindo o mistério pascal e depois apresentamos a doutrina católica, totalmente oposta à nova tese, com inúmeras referências dos Santos Padres, Doutores e comentaristas da Escritura. A própria Liturgia, como local da Sagrada Tradição, foi invocada para explicar e esclarecer o Santo Depósito.

Nessas fontes, absolutamente nada foi encontrado que comprovasse a ideia nefasta do mistério pascal, cuja intenção é diminuir o Sacrifício da Cruz e modificar o horror do pecado e a relação dos homens com Deus, tornando, desse modo, a religião antropocêntrica, como é característica do humanismo dos tempos atuais. É, o mistério pascal, uma doutrina nova, aliás, atestada pelos seus próprios teólogos, o que contraria o princípio de São Vicente de Lerins [7].

É apenas o Sacrifício de Cristo a causa de nossa salvação. Entretanto, não queremos apagar a importância da Ressurreição de Nosso Senhor. Como visto, toda a vida de Cristo tem relação com Seu Sacrifício de Cruz, o qual é o cume de Sua missão neste século. Pela doutrina católica, é fundamental que Aquele que fosse Se sacrificar para a salvação da humanidade tenha o poder de Se ressuscitar. Para tornar manifesto aos Seus Apóstolos e discípulos que Ele é Deus e, por isso, tem poder para retomar a vida, quis Ele mesmo fazê-lo “não muitos dias depois de Sua morte para que a Fé dos discípulos não se apagasse” (Santo Tomás de Aquino, Comentário ao Credo).

Não é a Ressurreição o fundamento da justificação, não é ela que paga o débito de nossos crimes e da prevaricação de Adão, mas somente o Sacrifício do Calvário. Ela é, contudo, complemento, parte integrante da Redenção operada na Cruz.

________________
Notas

[1] Aqui ocorre uma característica comum a toda sorte de erro perigoso: a meia verdade. É claro para qualquer católico que esses fatos estão ligados, pois que fazem parte da vida de Cristo. O que não é, entretanto, e que mostraremos que todos têm o mesmo peso na Redenção humana.

[2] O grupo herético Caminho Neocatecumenal também confirma o mesmo:

O Concílio Vaticano II faz uma nova teologia que nós trazemos. Não se fala mais de Redenção, mas de mistério pascal: que é como uma nova primavera (Kiko, Apostilas, Orientações às Equipes de Catequistas para a fase de Conversão, destaques nossos).

Existe, pois, uma grossa nuvem que nos tem impedido de receber a notícia, o acontecimento que Deus fez para nós. Os termos teológicos são termos jurídicos  segundo a mentalidade da Idade Média. Agora já se cancelou o “jurisdicismo”. O Concílio Vaticano II  não fala mais em termos jurídicos, mas fala do MISTÉRIO PASCAL, o que é totalmente outra coisa, pois “pascal” refere-se diretamente à História, à intervenção histórica de Deus com o povo de Israel. Falar da Redenção é uma abstração, ao passo que falar do mistério pascal é história concreta (Carmem, O Querigma).

[3] Sobre isso temos os textos da Redenção Vicária e do Sacrifício da Cruz.

[4] Afirmação evidente a priori. Contudo, com isso Yves quer dizer que o pecado não gera nenhum débito para com Deus que obrigue, sob justiça, alguma reparação. Aqui está a malícia dessa tese, mesmo em seu início, que é apresentar parte da verdade.

[5] A Ressurreição de Nosso Senhor é sinal de vida nova, da nova vida na graça, conseguida por Sua Morte. Em outras palavras, Ele poderia ainda nem ter ressuscitado e mesmo assim estaríamos  já redimidos.

[6] É exatamente essa a explicação dada pelos novos teólogos, como é possível observar pela citação da obra de Meinrad, já feita neste texto: “Não deveríamos nos enganar: mesmo que estejamos acostumados a atribuir à morte de cruz de Jesus um sentido profundo e divino, influenciados pelo anúncio do cristianismo primitivo“.

[7] Padre da Igreja do século V: «Quod ubique, quod sempre, quod ab omnibus», ou seja, o que em todos os lugares, sempre e por todos foi crido, isto é católico.

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