O SACRIFÍCIO DA CRUZ

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Damos sequência a mais outro texto, o terceiro, da série sobre a Liturgia (os dois primeiros podem ser lidos aqui e aqui).

O texto é da autoria de Raphael Cavalcanti.

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1 Sacrifício Redentor

 

1 Necessidade de um novo Sacrifício

Jesus Cristo, imolado sobre a Cruz no Calvário, é o termo ao qual conduz essa longa série de vítimas imoladas desde o princípio do mundo. Com efeito, se o sangue dessas vítimas era ineficaz para aplacar a Divindade, surgia diante da humanidade, cada vez mais urgente, a necessidade dum novo Sacrifício, capaz de satisfazer plenamente a justiça divina.

1.1 Necessidade de uma satisfação condigna

A gravidade da ofensa mede-se pela dignidade da pessoa ofendida. Quando esta pessoa é um Deus infinito, a ofensa reveste uma culpabilidade em certo modo infinita, de lesa-majestade divina.

Ora, um ultraje de gravidade infinita só pode ser reparado por uma satisfação de valor infinito.

Mas a satisfação, ao contrário da ofensa, não tira o seu valor da dignidade da pessoa a quem é prestada, mas sim da pessoa que a rende. E como uma pessoa criada é necessariamente limitada, finita, a sua satisfação, por muito grande que seja, é sempre finita e, portanto, incapaz de reparar um pecado de gravidade infinita.

Ora o pecado de Adão e Eva, desobediência lançada à face de Deus pela soberba humana instigada pelo demônio, foi um pecado de gravidade infinita.

Por conseguinte não podia ser expiado por nenhum ato da criatura, quer o homem se imolasse a si mesmo, quer se fizesse substituir no altar de Deus pelos animais submetidos ao seu domínio.

De fato, o homem que, no paraíso terrestre negara a Deus o pleito do seu culto, recusando-Lhe o sacrifício dos frutos que Deus reservara para Si, priva-se agora dos cereais da terra e dos frutos das árvores, dos animais dos campos e das aves do céu para sacrificá-los a Javé.

Mas a multiplicidade destas vítimas é sinal evidente da sua ineficácia: Per singulos annos eisdem ipsis hostiis, quas offerunt indesinenter, nuncam potest accendentes perfectos facere: alioquin cessassent offerri (A cada ano, se os fiéis, uma vez purificados, não tivessem mais pecado algum na consciência, já teriam cessado de oferecê-los – Hb 10,1-2). São fracos e pobres rudimentos, próprios da infância de um povo – Infirma et egena elementa (Elementos fracos e pobres – Gl 4,9) – a clamar por essa única Hóstia capaz de dar a Deus uma satisfação condigna da Majestade infinita ofendida, e de consumar na perfeição todos os que no decorrer dos séculos forem santificados. Qual será esta hóstia?

1.2 Jesus Cristo, Vítima

Se por um lado ela deve ser de um valor infinito, e se por outro no mundo das criaturas toda a dignidade, todo valor, todo o preço é limitado, finito, forçoso é ir buscá-la ao seio da Divindade. Seio fecundo, em que subsistem três Pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo.

Estas três Pessoas realmente distintas entre Si, possuem as mesmas perfeições, a mesma dignidade, porque todas três são uma só essência – Patris et Filii et Spiritus Sancti una est divinitas, æqualis gloria, coæterna maiestas (O Pai e o Filho e o Espírito Santo é uma só divindade, de mesma glória e coeterna majestade – Símbolo Quicumque). Uma Pessoa divina não pode, portanto, reconhecer superioridade em qualquer das Outras duas, nem por conseguinte inclinar-Se diante dEla em atitude humilde de súplica ou adoração. O Filho, é certo, pode ser chamado o cantor do Pai, pois diz, canta eternamente todas as suas perfeições. “Palavra eterna, o Verbo é, só pelo fato de ser o que é, como que um cântico divino, cântico vivo, que entoa o louvor do Pai, exprimindo a plenitude das Suas perfeições. É esse o hino infinito que ressoa sem cessar In sinu Patris (no seio do Pai)” (Dom MARMION, OSB. Jesus cristo vida da alma. 2ª edição, Braga, 1939, p. 419). Mas já não pode ser chamado o Pontífice, o Sacerdote, e muito menos a Vítima da Beatíssima Trindade; porque orar, adorar, sacrificar-se, são atos próprios de um ser dependente, inferior.

Logo, não podendo a criatura, em razão da sua pequenez, render a Deus uma satisfação condigna da Sua Majestade infinita, uma Pessoa divina também não a pode prestar, precisamente em razão da Sua grandeza, da Sua dignidade, visto não ter ente superior a quem render homenagem.

Ficará então o pecado sem reparação? E continuarão a correr sobre a terra, mas sem a poderem lavar, rios caudalosos de sangue?

Não, que a sabedoria onipotente de Deus é inesgotável em invenções de amor, fazendo apagar-se perante as maravilhas da restauração as linhas já grandiosas do plano da criação – Mirabiliter condidisti et mirabilus reformasti (Maravilhosamente criastes e mais maravilhosamente reformastes – Oração Deus qui humanæ, do Ordinário da Missa).

Desde que, no dizer dos Santos Padres, para ocupar os tronos angélicos deixados vazios pela queda de tantos puros espíritos, criara um novo ser em que o espírito se alia à matéria, a alma se reveste de um corpo – chama viva, inextinguível, num vaso de cristal tão frágil – não poderia agora, nesta nova reconstrução, juntar a divindade e a humanidade, reconciliando em Si estes dois extremos, infinitamente distantes – in se reconcilians ima summis? (Recociliando em Si o supremo e o ínfimo – Verso aleluiático da Missa III De Beata).

O que um Deus por Si só não podia fazer, e o que um homem por si só era incapaz de realizar, efetuá-lo-á um Deus-homem: Deus, operando por uma natureza humana e dando aos atos desta um valor infinito; homem, dando a Deus o poder (único que o tesouro das perfeições divinas não tinha e até excluía) de se abismar no nada, sofrer, morrer.

Et Verbum caro factum est (Jo 1,14). “E o Verbo divino incarnou”. A natureza humana, nascida milagrosamente da Virgem Maria, subsistindo numa Pessoa divina, é ungida pela Divindade. O ungido é o Sacerdote, o único e eterno Sacerdote de Deus e dos homens – Unus et mediator Dei et hominum homo Christus Iesus (Único mediador entre Deus e os homens, Cristo homem – I Tm 2,5). E este Sacerdote é simultaneamente a Vítima imaculada, condigna, oferecida ao Eterno Pai – A partu virgineo effectus hostia (Vítima perfeita de um parto virginal – Tertuliano).

1.3 Toda a vida de Jesus: um só sacrifício

Jesus Cristo é, portanto, o Sacerdote e a Vítima do Seu próprio Sacrifício. Assumiu a carne humana para a oferecer em holocausto – Carnem enim a nobis accepit, hanc obtulit. Sed unde illam accepit? De utero Virginis Mariae ut mundam offerret pro immundis (Sto. Agostinho, Ennarrationes in psalmis 149, n. 6). [1]

E de fato o seio virginal de Maria, se é o templo em que Jesus Cristo é consagrado Sacerdote, é também o altar em que inicia o Seu Sacrifício – Ideo ingrediens mundum dicit: Hostiam et oblationem noluisti: corpus autem aptasti mihi: Holocausto pro peccato non tibi placuerunt. Tunc dixi: Ecce venio; in capite libri scriptum est de me: Ut faciam, Deus, voluntatem tuam (Ao entrar no mundo, Cristo diz: Não quiseste sacrifício nem oblação, mas Me formaste um Corpo. Holocaustos e sacrifícios pelo pecado não Te agradam. Então Eu disse: Eis que venho; é de Mim que está escrito no livro: venho, Deus, para fazer a Tua vontade  – Hb 10,5-7).

Este primeiro ato de obediência, plenamente consciente, da vontade humana de Jesus bastaria para aplacar a Divindade e expiar o pecado da humanidade, pois era o ato de uma Pessoa divina e portanto de valor infinito.

Mas Deus não Se deixa vencer em generosidade. Onde abundou o delito, superabundará a graça (cf. Rm 5,20); a Redenção do Senhor, muito diferente da dos homens, é copiosa, transbordante – Copiosa apud eum redemptio (Sl 129,7).

Eis porque Jesus não Se contenta com oferecer a Seu Pai como satisfação, aliás, condigna, a Sua prisão no seio materno, a desnudez do presépio, o Sangue da Circuncisão, o desterro no Egito… Do altar imaculado de Maria estende os olhos para o altar sanguinolento da Cruz, e lança-Se para o Calvário com alegria e entusiasmo, fruto puro de um amor generoso – Exultavit ut gigas ad currendam viam (Exultou, como um gigante, a percorrer seu caminho – Sl 18,6).

Todos os atos da vontade de Jesus, todas as operações do Seu Corpo são orientados para a Cruz, com a qual vão constituir um só Sacrifício. O amor unifica e funde num só todos os sacrifícios da vida de Jesus. Sim, é a Caridade que a todo momento imola a Jesus, que O sacrifica. Imola-O, sacrifica-O, sem O matar, reservando-O sempre para novas imolações – Iugis amor sine cæde mactat [2]. E a todo momento Jesus estende os braços para a Cruz, Altar sublime em que Se vai entregar e consumar o Sacrifício da Redenção.

2 Essência do Sacrifício da Cruz

2.1 A Morte de Jesus, verdadeiro Sacrifício

Todos os atos da vida de Jesus são sacrifícios espirituais, capazes, pelo seu valor infinito, de dar a Deus uma satisfação condigna. Mas, segundo o plano da misericórdia superabundante de Deus, os merecimentos de todos esses atos permanecem suspensos até o momento supremo da consumação da vida de Jesus pela Sua Morte na Cruz.

A Morte na Cruz, ponto culminante para o qual tende toda a vida de Jesus – vida de amor: Ut cognoscat mundus quia diligo Patrem (Para que o mundo conheça que Eu amo o Pai – Jo 14,31) – vida de obediência: Factus obediens usque ad mortem, mortem autem crucis (Fez-Se obediente até a Morte e Morte de Cruz – Fl 11,8) – é um verdadeiro sacrifício. Para que o seja é preciso e basta que haja a oblação de uma vítima imolada, feita a Deus por um sacerdote legítimo, em reconhecimento do Seu supremo domínio.

Ora, todos estes requisitos se verificam no sacrifício da Cruz.

I. Sacerdote

Jesus Cristo é o Sacerdote, chamado de entre os homens, ordenado pelo Pai e consagrado pela unção da Divindade. Omnis namque Pontifex ex hominibus assumptus, pro hominibus constituitur in his, quae sunt ad Deum, ut offerat dona et sacrificia pro peccatis… Sic et Christus non semetipsum clarificavit ut pontifex fieret, sed qui locutus est ad eum: Filius meus es tu, ego hodie genui te. Quemadmodum et alio loco dicit: Tu es sacerdos in aeternum secundum ordinem Melchisedech (Todo pontífice é escolhido entre os homens e constituído a favor dos homens como mediador nas coisas que dizem respeito a Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados… Assim também Cristo não se atribuiu a si mesmo a glória de ser pontífice. Esta lhe foi dada por aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei, como também diz em outra passagem: Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque – Hb 5,1.5-6).

II. Vítima

É também a vítima. Sacerdos ipse Christus offerens, ipse et oblatio (Cristo é Ele mesmo o Sacerdote e a oblação – Sto. Agostinho, de Civitate Dei X, 20). É o Cordeiro pascal, imolado para a redenção da humanidade – Etenim pascha nostrum immolatus est Christus (Cristo nossa páscoa foi imolado – I Cor 5,7). Foi a natureza humana de Jesus a Vítima do Seu sacrifício. Quid tam congruenter ab hominibus sumeretur, quod pro eis offeretur, quam humana caro, et quid tam aptum huic immolationi, quam caro mortalis? Et quid tam mundum pro mundandis bitiis mortalium, quam sine contagione carnalis concupiscentiae caro nata in utero et ex utero virginali? Et quid tam grate offerri et suscipi posset, quam caro sacrifficii nostri, corpus effectum Sacerdotis nostri? (Sto. Agostinho, De Trinitate IV,14) [3]. A humanidade de Jesus é a hóstia perfeita em que se verificam todas as figuras do ritual mosaico: é hóstia pelo pecado – por Ele foram apagados todos os pecados da humanidade: Traditus est propter delicta (Padeceu por causa de nossos delitos – Rm 4,25); é hóstia pacífica – por ela foi obtida a graça da salvação: Factus est omnibus obtemperantibus sibi causa salutis æterne (Tornou-Se autor da salvação eterna para todos os que Lhe obedecem – Hb 5,9); é holocausto – a vítima é plenamente consumida para unir os homens à Divindade na glória celeste: Habentes itaque, fratres, fiduciam in introitu Sanctorum in sanguine Christi (Por esse motivo, irmãos, temos ampla confiança de poder entrar no Santuário, em virtude do Sangue de Cristo – Hb 10,19; cf. Sto. Tomás, Sum. Theol III, q. 22 a. 2).

III. Oblação e imolação

A imolação da natureza humana de Jesus foi a Sua morte violenta na Cruz: separação da Alma do Corpo e efusão de todo o Seu Sangue preciosíssimo.

Os instrumentos desta imolação foram, sem dúvida, os algozes que crucificaram Jesus. Eles não foram os sacerdotes deste sacrifício, mas tão somente os autores de um crime que só foi excedido pela Caridade da Vítima inocente.

O único Sacerdote deste Sacrifício foi Jesus. As mãos deicidas que Lhe prendiam o Corpo não Lhe ligavam a Alma, a qual Se oferecia livremente à morte numa obediência toda de amor ao mandado de Seu Pai – Qui etiam proprio Filio suo non pepercit, sed pro nobis omnibus tradidit illum. Sicut mandatum dedit mihi Pater, sic facio (Aquele que não poupou Seu próprio Filho, mas que por todos nós O entregou. Este mandamento dado a Mim pela Pai, assim faço – Rm 8,32; Jo 14,31).

Outra razão mais forte ainda obriga a confessar que Jesus Se ofereceu e imolou a Si próprio. Imolou-Se, enquanto que não impediu, como podia e tantas vezes tinha feito, os soldados de Lhe tocarem, de O prenderem e crucificarem; e enquanto que não repeliu do Seu Corpo, como podia por virtude da Alma unida à Divindade, os golpes cruentos da Sua Paixão (1). Por isso Jesus pode dizer que era por virtude própria que abandonava a Alma na imolação para de novo a tomar na Ressurreição (cf. Jo 10,17s). É o que Isaías tinha anunciado no seu Evangelho profético: Oblatas est quia ipse voluit (Foi oferecido porque Ele mesmo quis – Is 53,7). Pensamento que Santo Agostinho completou desta maneira: quia voluit, quomodo voluit (quis do modo que quis – De Trinitate IV,13,16); ou ainda por estas palavras: Non infirmitate, sed potestate mortuus est ([Morreu] não por fraqueza, mas por poder – De natura et gratia, n 26). E para mostrar mais claramente este poder, Jesus esperou pela plena consumação de todas as profecias, e então, quando quis, entregou o espírito.

A morte de Jesus é por conseguinte uma verdadeira oblação de uma vítima imolada, e portanto um sacrifício. Este Sacrifício é um verdadeiro holocausto, em que a hóstia, amaldiçoada por Deus – Factus pro nobis maledictum (Fez-Se maldito por nós – Gl 3,13) – é inteiramente queimada fora da cidade santa – Extra castra (Fora do campo – Ex 29,14) – no Altar da Cruz, elevado sobre os degraus do mundo (cf. S. Leão Magno, Sermo VIII de Passione Domini) no fogo do amor. Sim, que é o amor, para empregar a belíssima expressão da Liturgia, o Sacerdote que imola a divina Vítima: Amor sacerdos immolat (O amor é a vítima, o amor é o imolador – Hino Ad regias Agni dapes, do tempo Pascal).

IV. Fim

O fim geral do sacrifício é o reconhecimento do supremo domínio de Deus sobre todas as criaturas. O homem nada tem de si mesmo; tudo recebeu de Deus, para uso dos seus breves dias. Mas a justiça, que não só a gratidão exige que o homem retribua ao seu Benfeitor a liberalidade dos Seus dons, oferecendo-Lhe um dom que, embora já Lhe pertença – De tuis donis ac datis (Dos Vossos dons e dádivas – Unde et memores do Canon da Missa) – contudo é a expressão perfeita do reconhecimento da criatura.

Ora, durante quarenta séculos, o homem procurou no seio da criação um dom que pudesse oferecer à Divindade. Não o encontrando, buscou, mas debalde, compensar a deficiência dos sacrifícios com a sua multiplicidade. Por fim encontrou uma oblação capaz de satisfazer a Majestade de Deus ofendida: a natureza humana de Jesus. Esta vítima é preciosíssima aos olhos de Deus, primeiramente em razão da sua santidade incriada, por virtude da união hipostática com a segunda Pessoa da Santíssima Trindade; em segundo lugar em razão da sua santidade criada, de cuja plenitude foi revestida desde o primeiro momento da Sua existência – Plenum gratiæ et veritatis (Pleno de graça e de verdade – Jo 1,14). E ao ser oferecida, consagrada à Divindade, recebeu ainda nova santidade, ou, mais exatamente, foi santificada de um novo modo, como Hóstia atualmente sacrificada (Sto. Tomás, Sum. Theol. III q. 22, a. 2 e 3).

E tão agradável foi à Divindade, que Ela Se dignou aceitá-la numa comunhão transformante que Lhe restituiu a vida, tornando o Seu Corpo glorioso.

3 Frutos do Sacrifício da Cruz

3.1 Fruto principal, a redenção da humanidade.

O fim geral do sacrifício – reconhecimento da soberania absoluta de Deus compreende vários fins especiais: latrêutico, eucarístico, impetratório, satisfatório.

Sendo o fim o termo que o agente se propõe atingir, o efeito que pretende conseguir, o fim do sacrifício pode também ser chamado efeito ou fruto do sacrifício.

E predominando em qualquer sacrifício um dos quatro fins sobreditos, o sacrifício será respectivamente de adoração, de ação de graças, de impetração, de expiação.

No sacrifício da Cruz encontram-se estes quatro fins ou frutos, com predomínio no entanto dos dois últimos.

I. Adoração

É a prostração profunda da criatura diante do Criador; é o abatimento do que não é em face dAquele que é. Na Cruz, Jesus Cristo sente-Se não só abandonado por Seu Pai (cf. Sl 21,2), mas ainda se vê reduzido à condição de um vil animal, de um objeto de derisão (cf. ibid. 7). Portanto a Divina Vítima, que na Cruz Se abaixa até à morte, até ao nada, é uma Vítima de adoração.

II. Ação de graças

Agradecer é testemunhar o reconhecimento próprio por um dom recebido. Ora, que melhor meio poderá encontrar o homem para manifestar este reconhecimento do que restituir ao seu Benfeitor o dom dEle recebido, enriquecido pelo uso?

Jesus Cristo-Homem recebeu de Deus o Corpo nascido milagrosamente de uma Virgem puríssima, a Alma exornada da plenitude da santidade, e essa graça incriada, infinita, que era a doação da própria Divindade. E em ação de graças por tantos dons Jesus Cristo dá-Se a Si mesmo ao Pai.

Dá-Se também em nome de toda a humanidade. Criatura santíssima, em que Se compendiavam em grau supremo todas as perfeições do universo, Jesus Cristo era o melhor presente de ação de graças que a humanidade reconhecida podia oferecer ao seu Benfeitor.

Agradecia a Deus com o amor do Seu coração e as orações dos Seus lábios, que não só com o dom de Si mesmo, os imensos benefícios outorgados à Sua natureza humana e a toda a humildade. “A Sua alma tira da união com o Verbo o poder de uma ação de graças infinita. Pela primeira vez Deus é adorado e bendito quanto deve ser” (Sertillanges, Jésus cap. A oração de Jesus).

III. Impetração

Os Evangelistas, especialmente São Lucas que tanto insiste em nos apresentar Jesus no desempenho da Sua missão sacerdotal, falam frequentemente da oração de impetração que o divino Pontífice da humanidade dirigia a Seu Pai. Esta oração era naturalmente mais instante no ato supremo da imolação. O Apóstolo S. Paulo revela-nos mais claramente ainda esta finalidade do Sacrifício de Jesus: In diebus carnis suæ preces suplicationesque ad eum qui possit illum salvum facere a morte, cum clamore valido et lacrymis offerens, exauditus est pro sua reverentia (Nos dias de Sua vida mortal, dirigiu preces e súplicas, entre clamores e lágrimas, Àquele que O podia salvar da morte, e foi atendido pela Sua piedade – Hb 5,7). Jesus Cristo pediu para si a ressurreição do Seu Corpo, sinal da aceitação do Seu Sacrifício por parte do Pai e comunhão desse mesmo Sacrifício [4]; para toda a humanidade, a ressurreição da alma e do corpo. Com efeito, foi como segundo Adão, como chefe da humanidade nova, que Jesus entrou por direito de conquista na vida gloriosa, impassível e imortal, para poder comunicar aos membros do Seu Corpo Místico a participação da vida que Ele possuía em toda a plenitude.

IV. Satisfação

O Sacrifício da Cruz é, sobretudo, satisfatório. A justiça, violada pelo pecado, exigia uma reparação. Os direitos de Deus, espezinhados pelo homem, reclamavam uma satisfação. Esta devia ser condigna para restaurar a ordem perturbada. E Jesus Cristo, Deus e homem, ofereceu a Seu Pai uma satisfação condigna e superabundante, imolando-Se na Cruz em substituição de toda a humanidade. Esta satisfação é, com respeito a Deus, propiciação; com respeito à criatura, expiação. Como propiciação, atrai os olhares misericordiosos de Deus, tornando-O benévolo para com o homem. Que Jesus é Hóstia propiciatória, ensina-o S. Paulo: Quem (Jesum Christum) proposuit Deus propitiationem per fidem in sanguine ipsius, ad ostensionem justitiæ suæ, propter remissionem præcedentium delictorum (O qual [Jesus Cristo] foi destinado para ser, pelo Seu sangue, Vítima de propiciação mediante a Fé. Assim, Ele manifesta a Sua justiça; porque no tempo de sua paciência, ele havia deixado sem castigo os pecados anteriores – Rm 3,25); e São João: Et ipse est propitiatio pro pecatis nostris (E Ele é a propiciação dos nossos pecados – I Jo 2,2).

Como expiação, purifica dos seus pecados o homem criminoso. No pecado há a culpa e a pena. A culpa é lavada no Sangue de Jesus – Sanguis Christi… emundabit constientiam nostram ab operibus mortuis (O Sangue de Cristo… purificará a nossa consciência das obras mortas – Hb 9,14); a pena foi suportada por Jesus que, não tendo pecado, quis sofrer pelos pecados dos homens – Vere languores nostros ipse tulit et dolores nostros ipse portavit (Em verdade Ele tomou sobre Si nossas enfermidades, e carregou os nossos sofrimentos – Is 53,4; cf. Santo Tomás, Sum. Theol. III q. 22, a. 3).

Propiciatório e expiatório, o Sacrifício da Cruz reconciliou o homem com Deus, depois de ter abolido a causa da sua inimizade – Reconciliati sumus Deo per mortem Filii eius (Fomos reconciliados com Deus pela morte de Seu Filho – Rm 5,10); resgatou a humanidade do pecado – qui dedit redemptionem semetipsum pro omnibus (que Se entregou como resgate por todos – I Tm 2,6); deu a salvação eterna a todos os que aceitam a Fé (cf. Hb 5,9).

A redenção da humanidade é portanto o fruto principal, mas não exclusivo do Sacrifício da Cruz. Por isso a turba dos Bem-aventurados canta ao Cordeiro imolado: Occisus es et redemisti nos Deo in sanguine tuo (Ele é imolado e nos redime diante de Deus em Seu Sangue – Ap 5,9).

3.2 Sacrifício único e eterno

Os sacrifícios da Antiga Lei eram renovados sem cessar, por insuficientes para aplacar a divindade ofendida e santificar a humanidade pecadora. A Vítima imolada na Cruz em substituição de toda a humanidade é uma satisfação condigna e superabundante, que realiza de uma só vez o que não podiam os sacrifícios tão multiplicados da religião mosaica. O Sacrifício de Jesus é portanto um Sacrifício único – Christus semel oblatus est (Cristo Se ofereceu uma só vez – Hb 9,28). Una enim oblatione consummavit in sempiternum sanctificatos (Por uma só oblação Ele realizou a perfeição definitiva daqueles que recebem a santificação – Hb 10,14). Único, este Sacrifício domina todos os tempos; abraça todas as gerações; é eterno. Não, por certo, no sentido de que a sua oblação dura toda a eternidade, pois é um ato e, como tal, transitório, temporal; mas quanto aos seus efeitos, que são eternos: a glória de Deus e a salvação das almas.

Por isso o Pontífice da humanidade penetrou no Santo dos Santos do céu, em virtude do Seu próprio Sangue; apareceu diante do Pai com as cicatrizes das Suas chagas, único vestígio de sofrimento naquela mansão da felicidade, e está no trono do céu como um Cordeiro imolado, mas vivo – Agnum stantem tamquam occisum, viventem in sæcula sæculorum (O Cordeiro de pé, como que imolado, vivente pelos séculos dos séculos – Ap 5,6.13) – exercendo as funções do Seu Sacerdócio eterno – Eo quod maneat in aeternum, sempiternum habet sacerdotium (Este, porque permanece para sempre, possui um sacerdócio eterno – Hb 7,24).

Mas, se é verdade que o Sacrifício único e eterno do Calvário resgatou e santificou toda a humanidade, deve acrescentar-se que esta redenção e santificação foram operadas só em potência, em raiz. Para que os frutos do Sacrifício da Cruz possam aproveitar a cada um dos membros da humanidade, na série dos tempos, é preciso que lhe sejam aplicados. Esta aplicação faz-se por meio dos Sacramentos e do Sacrifício da Missa.

 

Notas

(1) Confira S. Tomás, Sum. Theol III, q. 47, a. 1.

***

Notas do editor

[1] Tradução do editor: “A carne que recebeu de nós, Ele a ofereceu. Mas de quem a assumiu? Do ventre da Virgem Maria para que o que é puro fosse oferecido por causa dos imundos”.

[2] Tradução do editor: “O jugo do amor, sem o sacrifício da morte”.

[3] Eis a perfeita explicação do fato Ressurreição no contexto do Sacrifício de Nosso Senhor na Cruz. Cai por terra, então, o nefasto mistério pascal.

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