O VALOR DOS FRUTOS DA MISSA

missa (2)

Já faz um tempo que estou tentando reunir aqui uma lógica para se explicar a Tradição, a verdadeira visão da Igreja Católica. Claro que não intento aqui esgotar o problema da crise, pois vai além não só de minha capacidade como de meu encargo.

Recomendo a seguinte ordem de leitura (antes desse último texto):

  1. Sobre a nova Missa.
  2. Sobre um dos erros dos tradicionalistas.
  3. Sobre o ministro nos Sacramentos.

Percebi que ao fim dessas três leituras acima, fica, talvez, um hiato lógico para se explicar a seguinte constatação: nem todas as Missas são iguais.

O texto original está aqui e o texto reproduzido abaixo aqui.

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Confusão em massa*: por que nem todas as Missas válidas são iguais

 

Alguma vez você já se questionou sobre como responder àqueles que igualam a eficácia da Missa Tradicional e a do Novus Ordo, direcionando a discussão para o âmbito da validade de ambas? Tais pessoas afirmam que qualquer Missa válida é uma renovação do Sacrifício de Nosso Senhor no Calvário, cujo valor é infinito, e, então, concluem que, sendo a Missa válida, ela também é de valor infinito, e, portanto, sempre eficaz para aqueles que freqüentam. Eles podem até admitir que uma Missa celebrada escandalosamente terá um efeito negativo sobre a disposição subjetiva dos presentes, o que poderia, talvez, diminuir a quantidade de graça que recebem; mas insistirão (ou pelo menos implicarão) que nem os abusos litúrgicos, nem um indigno sacerdote, nem orações aguadas ou música profana, por si só, diminuirão a eficácia da Missa ou os frutos dela derivados.

A resposta para a pergunta acima (como a Missa Tradicional é mais eficaz do que o Novus Ordo?) é encontrada na distinção entre o valor intrínseco e extrínseco da Missa. Antes de aprofundar este assunto, vamos relembrar os quatro fins da missa. O Catecismo de São Pio X os explica da seguinte forma:

“O Sacrifício da Missa é oferecido a Deus por quatro finalidades: (I) para homenageá-lo corretamente, e por isso é chamado Latrêutico; (II) Para agradecer a Ele por Seus favores, e por isso é chamado Eucarístico; (III) Para aplacá-lo, dar-lhe a devida satisfação pelos nossos pecados, e para ajudar as almas do Purgatório, e por isso é chamado Propiciatório; (IV) Para obter todas as graças necessárias para nós, e por isso é chamado Impetratório.”

Valores intrínseco e extrínseco

Ao considerar a eficácia da Missa, devemos distinguir entre o valor intrínseco e o extrínseco. O valor intrínseco refere-se ao poder eficaz do próprio Sacrifício. Como a Missa é essencialmente idêntica ao Sacrifício de Cristo no Calvário, de valor infinito, o valor intrínseco de qualquer Missa é, em si, infinito. Em Fundamentals of Catholic Dogma, lemos:

“O valor intrínseco da Missa, ou seja, sua dignidade peculiar e o poder eficaz intrínseco a ela (in actu primo) é infinito, devido à dignidade infinita do Dom do Sacrifício, e à dignidade infinita do Sacrificante primário”. (1)

Com relação ao valor extrínseco da Missa, é preciso fazer uma distinção entre o valor extrínseco quanto a Deus (a quem ela é oferecida), e o valor extrínseco em relação ao homem (por quem ela é oferecida). Uma vez que Deus é um ser infinito, e, portanto, capaz de receber um ato infinito, a adoração (fim latrêutico) e a ação de graças (fim eucarístico) oferecidas a Deus em virtude do sacrifício são em si infinitas. (2) Mas, uma vez que o homem é uma criatura finita, incapaz de receber efeitos infinitos, os efeitos da Missa em relação ao homem – que são chamados de “os frutos da Missa” – são limitados.

Em seu magnífico livro, The Holy Sacrifice of the Mass, o Padre Nicholas Gihr escreveu: “Se considerarmos o Sacrifício eucarístico em si … bem como os tesouros inescrutáveis aí encerrados … perceberemos como a Santa Missa possui um valor absolutamente infinito” e, em seguida, um pouco mais adiante acrescentou:

“Mas é diferente quando o Sacrifício Eucarístico é considerado em sua relação com o homem. A partir deste ponto de vista, a Missa tem como objetivo a aquisição de nossas salvação e santificação, e é, portanto, um meio de graça, ou melhor, uma fonte de graça, trazendo-nos as riquezas das bênçãos celestiais. (…) Os frutos que o Sacrifício da Missa nos obtém de Deus são apenas finitos, ou seja, limitados a um determinado número e a uma medida determinada… O Sacrifício da Missa, portanto, no que diz respeito ao homem, só pode ter uma eficácia restrita e em seus frutos é susceptível apenas de aplicação limitada”. (3)

O mesmo autor prossegue explicando que a eficácia limitada “não reside na essência ou o valor do Sacrifício, uma vez que este possui um poder infinito para produzir todos os efeitos”. Pelo contrário, “a razão última e decisiva da aplicação mais ou menos abundante das graças deste sacrifício é a vontade mesma de Cristo, em outras palavras, deve ser buscada na determinação positiva de Deus”. (4) Ele explica que, ainda que a própria Missa seja uma fonte infinita de graças, quando se trata de “distribuição de Seus dons, Deus requer a nossa cooperação”. (5)

Os Frutos da Missa

O fruto que deriva de uma determinada Missa a um indivíduo não se baseia apenas em sua piedade pessoal ou em sua devoção, que são apenas alguns dos fatores que determinam a quantidade de graça que se recebe. Há outros fatores também que têm um certo peso sobre a eficácia de uma determinada Missa, como a santidade do sacerdote, a glória externa dada a Deus pelo rito, e até mesmo a santidade geral da Igreja em seus membros numa determinada época. Estes fatores externos afetam a quantidade de graça que uma pessoa recebe, de tal forma que se pode obter mais fruto da assistência devota de uma determinada Missa do que de uma assistência igualmente devota, porém de uma Missa diferente.

A santidade da Igreja

Um fator determinante da eficácia da Missa é a santidade geral da Igreja em seus membros em um determinado momento histórico, incluindo a dos bispos e a do papa reinante. Em relação a este ponto, a velha Enciclopédia Católica diz que “a grandeza e a extensão deste serviço eclesiástico depende da maior ou menor santidade do papa reinante, dos bispos, do clero e de todo o mundo, e, por isso, em tempos de decadência eclesiástica e frouxidão moral (especialmente na corte papal e entre o episcopado) os frutos da Missa, resultantes da atividade sacrifical da Igreja, pode, em determinadas circunstâncias, ser muito pequeno”. (6)

Em relação a este mesmo ponto, Pe. Gihr escreveu: “Mas uma vez que a santidade da Igreja consiste na santidade de seus membros, tal santidade não é sempre e invariavelmente a mesma, mas maior em um período do que em outro; portanto, o sacrifício da Igreja também é ora mais, ora menos agradável a Deus e proveitoso para o homem”. (7)

Uma vez que este fator é baseado na condição moral da Igreja como um todo, ele terá um efeito igual em todas as Missas celebradas em um dado momento da história. Os próximos vários fatores, no entanto, são baseadas em circunstâncias específicas, que têm um efeito direto sobre a eficácia de Missas inpidualmente consideradas.

O Sacerdote

Santo Tomás explicou que os frutos que derivam de uma determinada Missa se baseiam, em parte, na santidade do sacerdote celebrante que intercede pelos fiéis, “e, neste sentido, não há dúvida de que a Missa é tanto mais frutífera quanto melhor for o sacerdote”. (8)

A missa celebrada por um sacerdote irreverentemente indigno, ou pior ainda, por um que viola as rubricas, será menos eficaz e, portanto, produzirá menos frutos do que uma celebrada por um sacerdote santo, que a reza com devoção e que segue as rubricas com precisão. Assim, como o Pe. Gihr observou, “os fiéis são, desta forma, guiados por um são instinto quando preferem assistir a uma Missa, celebrada em suas intenções, por um sacerdote reto e santo, em vez de por um indigno…” (9) São Boaventura disse que “é mais lucrativo ouvir a missa de um bom sacerdote do que de um que seja indiferente”.

O Cardeal Bona ( + 1674) explicou este ponto desta forma:

“Quanto mais santo e agradável a Deus um sacerdote é, tanto mais aceitáveis são as suas orações e oferendas; e, quanto maior a sua devoção, maior o benefício a ser obtido a partir de sua Missa. Pois, assim como outras obras boas realizadas por um homem piedoso ganham mérito em proporção ao zelo e devoção com que são realizadas, do mesmo modo a Santa Missa é mais ou menos rentável, tanto para o sacerdote que a diz quanto para as pessoas por quem é dita, conforme ela é celebrada com mais ou menos fervor”.

O Rito

Outro fator determinante da eficácia de uma Missa é o grau de glória externa dada a Deus. Neste aspecto, nem todos os ritos são iguais; tampouco uma Missa rezada tem a mesma eficácia que uma Missa solene. Sobre este ponto, o Pe. Gihr escreveu:

“A Igreja não só oferece o Sacrifício, mas, além disso, une à sua oferta várias orações e cerimônias. Os ritos do Sacrifício são realizados em nome da Igreja e, portanto, fortemente movem Deus a transmitir Seus favores e a estender Sua generosidade para com os vivos e os mortos. Por causa da variedade das fórmulas da Missa, a eficácia impetratória do Sacrifício pode ser aumentada… também a natureza das orações da Missa (e até mesmo a natureza de todo o seu rito) exerce consequentemente uma influência sobre a medida e a natureza dos frutos do Sacrifício. Disto seguem várias conseqüências interessantes. Por exemplo, por parte da Igreja, uma missa solene celebrada tem maior valor e eficácia do que meramente uma Missa rezada (…) Em uma Missa Solene, seu aspecto é mais rico e mais brilhante do que em uma Missa rezada; pois uma celebração solene da Igreja, a fim de elevar a dignidade do sacrifício, manifesta maior pompa, e Deus é mais glorificado por ela. (…) Esta celebração maior e mais solene do sacrifício é mais agradável a Deus e, portanto, é pensada para melhor movê-lO a nos conceder, em Sua misericórdia, os favores que imploramos ─ ou seja, para conferir maior eficácia às petições e súplicas da Igreja”. (10)

Mesmo a decora tem um efeito sobre os frutos da Missa, na medida em que contribui ou prejudica a glória externa de Deus. Como o Pe. Ripperger, FSSP, explicou em seu artigo sobre este tema: “Se usarmos objetos que não são apropriados à majestade e à natureza excelsa do Santo Sacrifício da Missa, nós podemos realmente diminuir seu mérito extrínseco. Coisas feias agradam menos a Deus e, portanto, têm méritos menores”. (11)

Novus Ordo Missae

Se, como o Pe. Gihr observou acima, “a natureza das orações da Missa (e até mesmo a natureza de todo o seu rito)” têm um efeito sobre os frutos da Missa, isto não representa bom presságio para o Novus Ordo, que, para usar as palavras do Cardeal Ottaviani, “representa, tanto em seu todo quanto em seus detalhes, um surpreendente afastamento da teologia católica da Missa tal como foi formulada na Sessão XXII do Concílio de Trento”, e “tem todas as possibilidades de satisfazer o mais modernista dos protestantes”. (12)

Quando consideramos o naufrágio litúrgico que é o Novus Ordo Missae e a maneira escandalosa em que a Missa é muitas vezes celebrada, é de se admirar que a Igreja esteja na condição em que está hoje? Recordemos as palavras estranhas e até mesmo sinistras utilizadas por Paulo VI quando ele introduziu a Missa Nova para o mundo em novembro de 1969. Em palavras que, sem dúvida, causaram ansiedade a muitos, o Papa disse:

“Nós lhes pedimos, uma vez mais, que mudem suas mentes quanto ao novo rito da Missa. Este novo rito será introduzido em nossa celebração do Santo Sacrifício a partir de domingo próximo, que é o primeiro do Advento… uma mudança em uma venerável tradição que já dura séculos. Isso é algo que afeta o nosso patrimônio religioso hereditário, que parecia desfrutar do privilégio de ser intocável e definitivamente estabelecido… Esta alteração afetará as cerimônias da Missa. Devemos tomar consciência, talvez com algum sentimento de aborrecimento, que as cerimônias no altar já não serão realizadas com as mesmas palavras e gestos a que estávamos acostumados…Temos de nos preparar para um inconvenitente multifacetado. É o tipo de transtorno causado por cada novidadeque irrompe em nossos hábitos. Devemos observar que pessoas piedosas são as mais perturbadas, porque elas têm sua própria maneira respeitável de ouvir missa, e vão se sentir abaladas em seus pensamentos habituais e obrigadas a seguir os dos outros. Mesmo sacerdotes podem sentir algum incômodo a esse respeito… Temos que nos preparar. Esta novidade não é pouca coisa. Não devemos deixar-nos surpreender pela natureza, ou mesmo o incômodo, das formas externas (da Missa)… Vamos perder uma grande parte de algo que é artística e espirirualmente estupendo e incomparável: o canto gregoriano. Temos motivos de fato para pesar, razão quase para espanto”. (13)

É, portanto, uma surpresa que uma Missa descrita pelo próprio Papa que a publicou como sendo um “inconvenitente multifacetado” e um “incômodo”, e que causaria “o sentimento de aborrecimento”, “arrependendimento” e “perplexidade”, tenha diminuído em muito valor extrínseco do rito, e, portanto, redundado em desastre para a Igreja? Quase 30 anos depois, o Cardeal Ratzinger escreveu: “Estou convencido de que a crise na Igreja que estamos vivendo hoje é, em grande medida, fruto da desintegração da liturgia.” (14)

Muitas pessoas de pensamentos claros previram, desde o início, o desastre que resultaria do Novus Ordo. No exame crítico da Missa Nova (mais tarde conhecida como a Intervenção Ottaviani), que foi escrito por doze teólogos romanos e assinado pelos cardeais Ottaviani e Bacci (que o apresentaram a Paulo VI), lemos:

“Abandonar uma tradição litúrgica que por quatro séculos foi tanto o sinal e o penhor da unidade de culto, e substituí-la por outra (que não pode deixar de ser um sinal de pisão em virtude das inúmeras liberdades implicitamente nela autorizadas, e que está repleta de insinuações ou de erros manifestos contra a integridade da religião católica) é, sentimo-nos em consciência obrigados a proclamar, um erro incalculável”.

Eles observaram, ainda, que “tem sido sempre o caso de que, quando uma lei cuja intenção era proporcionar o bem dos indivíduos revela-se, pelo contrário, prejudicial, os súditos têm o direito, ou melhor, o dever, de pedir com confiança filial sua revogação”.

Infelizmente, a “lei” nunca foi revogada e a Igreja pagou o preço, como o próprio Cardeal Ratzinger observou em 1997.

Conclusão

O Catecismo de São Pio X explicou a diferença entre o Sacrifício do Calvário e do Sacrifício da Missa como se segue: “Na Cruz, Jesus Cristo ofereceu a si mesmo, derramando Seu sangue e adquirindo méritos para nós; enquanto que, em nossos altares, Ele se sacrifica sem derramamento de Seu sangue, e aplica em nosso favor os frutos da Sua paixão e morte.” Mas, como vimos, os frutos da Missa (os méritos aplicados a nós na Missa) são finitos em sua aplicação e dependem de muitos fatores: a santidade do sacerdote e a maneira em que ele diz a Missa terão um efeito sobre os frutos dela; o rito e até mesmo a decora terão um efeito sobre a quantidade de graças que se recebe, uma vez que quanto maior for a solenidade, a beleza e a grandeza da celebração, maior será a glória dada a Deus e, consequentemente, maiores serão as graças que Ele derrama sobre aqueles que assistem.

Por essa razão, vale a pena o esforço extra para participar da Missa Tradicional, que Pe. Faber chamava de “a coisa mais linda deste lado do céu”, e evitar, a todo custo, o Novus Ordo Missae, a que o próprio Cardeal Ratzinger referiu como “uma invenção, um produto banal do instante”. (15)

 

NOTAS

1) Fundamental of Catholic Dogma, Ott, TAN, pg 414

2) Ibid.

3) Holy Sacrifice of the Mass (Becktold Printing and Book Mfg Co, 1902), pg 137-138

4) Ibid. p. 138-139

5) Ibid. p. 139

6) Catholic Encyclopedia, Vol. X (1913) p. 19

7) Holy Sacrifice of the Mass (Becktold Printing and Book Mfg Co, 1902), p. 144

8) Summa, St. Thomas, Pt III, Q 82, A.6

9) Holy Sacrifice of the Mass (Becktold Printing and Book Mfg Co, 1902), p. 147

10) Ibid. p. 144-145

11) The Merits of a Mass, Fr. Ripperger, Latin Mass Magazine,

12) Ottaviani Intervention

13) Paul VI, General Audience, November 26, 1969

14) Milestones, Ratzinger, 1997

15) The Reform of the Roman Liturgy, by (Msgr Gamber, Introduction to the French edition

***

Nota do tradutor

* O título do artigo em inglês, Mass Confusion: Why All Valid Masses Are Not Equal, faz um trocadilho com o termo “Mass”, que em inglês significa Missa, para significar também uma “grande confusão”, ou “confusão em massa”, como traduzimos acima.

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