III ARTIGO: ENCARNAÇÃO (PARTE 1 DE 2)

Natal - Gerard_van_Honthorst

Este artigo ensina: “[Jesus Cristo] que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu de Maria Virgem”. Depois de analisar o Nome divino de Nosso Senhor, o Símbolo passa a considerar o fato histórico pelo qual o Verbo de Deus pôde ter realmente um nome; em outras palavras, como a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade fez-Se homem. Esse mistério é chamado de mistério da Encarnação: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14).

A Encarnação, início da redenção humana, já prometida por Deus na queda de Adão; isso é exprimido explicitamente pela Igreja:

E por nós, homens, e para nossa salvação desceu dos Céus. E encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem (Símbolo niceno-constantinopolitano).

Finalmente, a Encarnação é o mistério pelo qual o Verbo, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, sem deixar de ser Deus, assumiu a natureza humana:

Sendo Ele de condição divina, não Se prevaleceu de Sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-Se aos homens (Fl 2,6s).

É importante ressaltar que Cristo não deixou de ser Deus, já que “em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2,9).

Cristo é, portanto, o Verbo que uniu a Si mesmo, Deus, a natureza humana. Essa união ocorre sem misturar as naturezas e se dá na única Pessoa do Verbo, por isso é chamada de união hipostática, porque se realiza na pessoa.

Jesus Cristo tem, pois, duas naturezas distintas (diafisismo): a divina, que tem por direito desde toda a eternidade; e a humana, que tem por admissão no tempo. Todavia, apenas uma Pessoa que dá suporte em ambas as operações (ou natureza). De maneira que toda ação de Cristo é ação Deus, pois Ele é Deus (cf. Jo 1,14 citado acima).

Jesus é verdadeiro (e totalmente) Deus e verdadeiro (e totalmente) homem:

Sendo Ele de condição divina (…) sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz (Fl 2,6.8).

Tentaremos agora colocar um pouco de luz sobre esse excelso mistério:

O homem, como sabemos, é um ser composto de corpo e alma racional. Assim que seu corpo é formado pela união dos gametas masculino e feminino, Deus cria uma alma espiritual capaz de, somente ela, unir-se a esse corpo recém-formado (este ato é conhecido como animação): dá-se assim a criação de uma natureza humana. Neste momento, então, uma pessoa humana é criada, pois que qualquer natureza precisa, necessariamente, de um sujeito (ou pessoa ou suposto) que lhe dê suporte para as operações.

De modo diverso, contudo, foi a encarnação de Cristo. Quando, pela virtude de Deus onipotente (cf. Lc 1,35), o Seu corpo foi formado apenas do material materno, uma alma espiritual foi criada por Deus e foi unida a esse corpo miraculosamente formado nas puras e virginais entranhas da Santíssima Virgem (deu-se, pois, a criação de uma natureza humana). Como dito acima, essa natureza recém-formada precisa de uma pessoa para lhe dar suporte. Desde o primeiro instante da animação a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Logos, assuma-a tomando para Si essa natureza: é o momento da Encarnação do Verbo.

Cristo tinha tudo o que o homem tem, a saber, corpo e alma espiritual:

Igual a nós em tudo, com exceção do pecado (Hb 4,15).

O puríssimo Corpo de Cristo

Seu Corpo é real, delicadíssimo e totalmente perfeito, com sensibilidade acutíssima e mais robusto que o nosso:

Jejuou quarenta dias e quarenta noites. Depois, teve fome (Mt 4,2).

Apalpai e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que tenho (Lc 24,39).

Sua alma é espiritual, ou seja, além de ser imortal tinha sensibilidade, inteligência e vontade livre. Mas infinitamente mais perfeita, quer nas faculdades naturais, quer nos dons sobrenaturais.

Sensibilidade:

Minha alma está triste até a morte (Mt 26,38).

Aproximando-Se ainda mais, Jesus contemplou Jerusalém e chorou sobre ela (Lc 19,41).

Ao vê-la chorar assim, como também todos os judeus que a acompanhavam, Jesus ficou intensamente comovido em espírito e sob o impulso de profunda emoção (Jo 11,33).

A inteligência de Cristo

Cristo tinha um conhecimento divino e um humano. Enquanto Deus, conhece tudo, assim como o Pai e o Espírito Santo: é onisciente. Enquanto homem, tinha entendimento infinitamente superior ao de qualquer criatura:

Em Cristo estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência (Cl 2,3).

Coração de Jesus, no qual estão todos os tesouros da sabedoria e ciência (Ladainha do Sagrado Coração de Jesus).

Os teólogos costumam dividir o modo pelo qual essa ciência humana de Cristo consegue apreender:

  • o conhecimento da ciência infusa à semelhante ao dom preternatural que nossos primeiros pais possuíam, mas em grau muito mais eminente (superior até que a dos anjos).
  • o conhecimento da visão beatífica à Sua humanidade contempla, já desde Sua Encarnação no sei da Virgem, a essência da divindade e nela conhece tudo (conhecimento semelhante, mas infinitamente inferior tem os Santos no paraíso celeste).
  • o conhecimento adquirido pela experiência à como qualquer homem: “E Jesus crescia em estatura, em sabedoria e graça, diante de Deus e dos homens” (Lc 2,52).

A vontade de Cristo

Cristo, como visto, tem duas naturezas. Por conseguinte, Ele tem também duas vontades, pois são operações da natureza, uma divina e uma humana.

Sua vontade humana estava, entretanto, totalmente subordinada e em total conformidade com a vontade divina (por isso, não podia desejar o mal e o pecado):

Pai, se é de Teu agrado, afasta de Mim este cálice! Não se faça, todavia, a Minha vontade, mas sim a Tua (Lc 22,42).

Em resumo, em Cristo, embora haja duas vontades realmente distintas, há apenas uma vontade moral.

*

Heresias acerca da Encarnação

  • Manes, um gnóstico do século II e criador do maniqueísmo, dizia que Cristo era Deus, mas que não era homem verdadeiro e que tinha Corpo apenas aparente: esta é a heresia do docetismo (do grego “que parece”). Foi combatida pelos Padres Santo Inácio de Antioquia e Santo Irineu de Lião. A escritura é rica em passagem nas quais Cristo Se refere a Si como “filho do homem” (cf. Mt 8,20; 9,6; Mc 2,28; 8,31; Lc 6,22; 7,34; Jo 1,51; 3,13s etc.), ou seja, humano.
    Contra esse erro, a Igreja acrescentou: “E Se encarnou”:

Apalpai: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que tenho (Lc 24,39).

  • Valentino (séc. II), também gnóstico, dizia que Cristo tinha um corpo celestial. Por isso: “no seio da Virgem Maria”:

Maria perguntou ao Anjo: ‘Como se fará isso, pois não conheço homem?’. Respondeu-lhe o anjo: ‘O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso o Santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus’ (Lc 1,34s).

Mas quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, que nasceu de uma mulher e nasceu submetido a uma lei (Gl 4,4).

  • Apolinário (séc. IV), na ânsia por rejeitar o arianismo e consequentemente afirmar a divindade de Cristo, pregou que Ele não tinha alma. Para refutar esse erro, os Padres do Concílio de Constantinopla escreveram: “se fez homem”:

Disse-lhes, então: Minha alma está triste até a morte (Mt 26,38).

  • Nestório (séc. V), Patriarca de Constantinopla, para ressaltar as duas naturezas de Cristo, fez tal distinção entre elas que afirmou que nEle havia duas pessoas diferentes (uma humana e uma divina), sendo Nossa Senhora apenas Mãe da pessoa humana. Foi veementemente combatido por São Cirilo de Alexandria no Concílio de Éfeso [1].
  • Eutiques (séc. V) teve uma reação para o extremo oposto em relação ao nestorianismo: Cristo, para ele, tinha uma só natureza, porque a divindade absorvia totalmente a humanidade. Nascia assim a heresia do monofisismo, condenada definitivamente pelo Concílio da Calcedônia [2].
  • Monotelismo (séc. VII) pregava que Cristo tinha apenas uma vontade, apesar de duas naturezas. Com a intenção de congraçar os monofisistas, novamente o patriarcado de Constantinopla cai em heresia (dessa vez sob o Patriarca Sérgio I). Foi condenada no Concílio Ecumênico de Constantinopla III.

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Notas

[1] Infelizmente, parte da Igreja não aceitou o Magistério do Concílio de Éfeso e o primeiro cisma foi feito, criando a Igreja Assíria do Oriente, também chamada de pré-efesianos ou Igreja nestoriana.

[2] Parte da Igreja rejeitou o ensino do Concílio da Calcedônio, formando o segundo cisma da Igreja. Foi assim criada a Igreja Ortodoxa Oriental (formadas pelas Igrejas Copta, Síria, Armênia, Etíope, Eritreia e Indiana), também chamada de pré-calcedoniana ou Igreja monofisita.
A Igreja Ortodoxa Oriental, por sua vez, nega professar o monofisismo e afirma que o diafisismo nada mais é do que o nestorianismo. Afirmam crer no miafisismo: Cristo tem uma natureza, que é tanto divina quanto humana, com todas as características de ambas sem confusão, sem mudança, sem divisão e sem separação.

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