
1 Antigo e venerável
Claro que não é nosso escopo esgotar toda a riqueza da história do Rito Romano. Dito isto, é mister afirmar que o Rito Gregoriano é um Rito antigo e venerável [1]. Além disso, esse Rito é o Rito dos Santos, foi ele que forjou São Francisco de Assis, Santo Antônio de Pádua, São João Bosco, São Luís Maria Grignion de Montfort. Foi essa a Missa que converteu os índios aqui no Brasil e em qualquer outra missão onde houvesse pelo menos um sacerdote, quer no Japão, quer nos Estados Unidos, quer na Índia ou na África…
Ademais, o Missal Romano não tem um autor único, ele é fruto de várias mãos durante os séculos. Sobre isso, diz o especialista em Liturgia Victor Leroquais:
O Pontifical não é nem a obra de um só homem nem a obra de um só dia. É uma obra anônima na qual trabalharam numerosos operários quase todos desconhecidos atualmente, e cuja conclusão demorou séculos. É uma catedral construída em diferentes momentos e que tem as marcas de épocas sucessivas (…) Na realidade o Pontifical Romano é a obra de quinze séculos de Fé e de vida litúrgica. O Ocidente inteiro: a Roma antiga, as Gálias, o Império Franco, mais tarde a Espanha, o Império Germânico, a França, a Grã-Bretanha e a Itália trabalharam nesta obra grandiosa (Les Pontificaux manuscrits des bibliothèques publiques de France, 1937, tomo I).
Os primeiros registros do Rito Romano estão documentados desde o século V com o Sacramentário [2] Leonino (São Leão Magno, Padre da Igreja). Muitas outras orações estão compreendidas no Sacramentário Gelasiano (Papa Gelásio) também no século V e um dos mais importantes Sacramentários. Até finalmente o Sacramentário Gregoriano, no século VI, pontificado do Papa São Gregório Magno, cujos textos são a base para o Missal Romano.
A respeito disso, temos a carta do Papa Adriano I no século IX, quando Carlos Magno pediu uma cópia do Sacramentário Gregoriano:
Tu pediste para que enviássemos uma cópia sem acréscimos do Sacramentário feito por nosso Santo predecessor o Papa Gregório. Nós o fazemos agora pelas mãos de João, Abade de Ravena (Carta do Papa Adriano I ao imperador).
O influente e renomado liturgista pe. Adrian Fortescue, colaborador da Enciclopédia Católica (especialmente no verbete Liturgy of the Mass) diz em seu livro:
Essencialmente, o Missal de Pio V é o Sacramentário Gregoriano; que, por sua vez, é formado a partir do livro Gelasiano, o qual depende da coleção Leonina. Encontramos as orações de nosso Cânon no tratado De Sacramentis e alusões a ele no século IV. Assim, nossa Missa remonta, sem mudanças essenciais, à época em que se desenvolveu a partir da Liturgia mais antiga de todas. Ela ainda exala o perfume daquela Liturgia, dos dias em que César governava o mundo e pensava que poderia extinguir a Fé em Cristo, quando nossos antepassados se reuniam antes do amanhecer e cantavam hinos a Cristo e a Deus. O resultado final de nossa investigação é que, apesar de problemas não resolvidos e de mudanças posteriores, não há na cristandade outro rito tão venerável quanto o nosso (…) O preconceito que imagina que tudo o que é oriental deve ser antigo é um erro. Os ritos orientais também foram modificados posteriormente; alguns deles, bem tarde. Nenhum rito oriental atualmente em uso é tão arcaico quanto a Missa Romana (The Mass: A Study of the Roman Liturgy, 1912, destaques nossos).
2 Missal Tridentino

Já foi citado no texto anterior que o Rito Romano, de início, era celebrado apenas em Roma. E paulatinamente as outras dioceses foram tomando para si o Rito Romano (as vezes até por força de Roma, como no caso do Rito Moçárabe). Entretanto, essa adoção não foi feita incorruptivelmente. Cada vez que um diocese tomava para si o Rito Romano, o fazia com alterações de modo que as cerimônias locais não eram fiéis ao Rito celebrado em Roma, mas uma variação do Rito Romano, ou seja, um uso desse Rito.
Explicações para essas alterações são múltiplas. Mas podemos elencar a falta centralidade do poder religioso e consequente excesso de liberdade dos bispos. Isso favorecia que a piedade local influenciasse mais ativamente a vida litúrgica daquelas dioceses.
Em suma, havia um sem números de variações do Rito Romano que, na prática, levava a ter um Rito para cada diocese [3].
Essas questões, aliadas a outros problemas de ordem política que sabemos, culminaram na revolta protestante (a primeira das revoluções) e numa decadência moral e de Fé. Em contra partida, a Igreja realizou o Concílio de Trento a fim de reformar a Igreja, reconhecendo a existência dos problemas eclesiásticos.
Focaremos, evidentemente, nas determinações tridentinas para reforma litúrgica, que é o escopo do texto. Para proteger a Liturgia, é instituída a Congregação dos Ritos em 1588 (hoje chamada de Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos), encarregada de fiscalizar a Liturgia e desenvolver o Rito Romano.
Em 1568 o Papa São Pio V publica o novo Breviário [4]. E em 14 de julho de 1570 é publicado o Missal Romano com a publicação, obrigatoriamente anexa a ele, da Bula Quo primum tempore. Abaixo reproduzimos o trecho em que se fala do trabalho de formulação do Missal:
Para tanto, julgamos dever confiar este trabalho a uma comissão de homens eruditos. Estes começaram por cotejar cuidadosamente todos os textos com os antigos de nossa Biblioteca Vaticana e com outros, quer corrigidos, quer sem alteração, que foram requisitados de toda parte. Depois, tendo consultado os escritos dos antigos e de autores aprovados, que nos deixaram documentos relativos à organização destes mesmos Ritos, eles restituíram o Missal propriamente dito à norma e ao Rito dos Santos Padres [5]. Este Missal assim revisto e corrigido, Nós, após madura reflexão, mandamos que seja impresso e publicado em Roma, a fim de que todos possam tirar os frutos desta disposição e do trabalho empreendido, de tal sorte que os padres saibam de que preces devem servir-se e quais os ritos, quais as cerimônias, que devem observar doravante na celebração das Missas. E a fim de que todos, e em todos os lugares, adotem e observem as tradições da Santa Igreja Romana, Mãe e Mestra de todas as Igrejas, decretamos e ordenamos que a Missa, no futuro e para sempre, não seja cantada nem rezada de modo diferente do que esta, conforme o Missal publicado por Nós. Assim, portanto, que a ninguém absolutamente seja permitido infringir ou, por temerária audácia, se opor à presente disposição de nossa permissão, estatuto, ordenação, mandato, preceito, concessão, indulto, declaração, vontade, decreto e proibição. Se alguém, contudo, tiver a audácia de atentar contra estas disposições, saiba que incorrerá na indignação de Deus Todo-poderoso e de seus bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo (Papa São Pio V, 1570, Bula Quo primum tempore, destaques nossos).
Passados apenas 34 anos da reforma tridentina, o Papa Clemente VIII se vê obrigado a revisar o Missal Romano de São Pio V por causa de abusos que foram cometidos. Para tal feito, promulga o documento Cum Sanctissimum. A esse respeito diz o pe. John Berthram O’Connell no seu livro:
Pouco mais de trinta anos se passaram quando, apesar das fulminações de Pio V em sua Bula contra todos que ousassem mudar o Missal, Clemente VIII achou necessário emitir outra edição. Ele fez isso em 1604 pelo Breve Cum sanctissimum.
O principal objetivo da nova revisão era restaurar o Missal de Pio V. Graves desvios ocorreram, pela substituição dos textos do Vetus Latina pelos textos da nova edição da Vulgata (1592), pela perturbação do texto das Epístolas e Evangelhos, e por outras mudanças não autorizadas.
A ocasião foi aproveitada para introduzir novas festas no Missal, o rito do “duples maior” e o Comum das não Virgens, que fez sua aparição oficial pela primeira vez (The Celebration of Mass: A Study of the Rubrics of the Roman Missal, 1964, destaques e tradução nossos).
3 O século XX
Pode-se dizer que a Liturgia viveu desde o documento Cum Sanctissimum um período de auge, em que se destacam grandes liturgistas e estudiosos como o abade de Solesmes Dom Prosper Guéranger. É certo que no fim do século XIX e início do XX o modernismo começa a fincar seus tentáculos na Igreja e na sociedade [6].
É então na segunda metade do século XX que o Rito Romano sofreu várias modificações (ao todo foram 11 em 18 anos) que, diferente do que São Pio V fez e ordenou que todos seguissem, destruíram a identidade do Rito, distanciando-o dos Santos Padres e de sua eminente origem, até, infelizmente, a sua total deformação.
Segue a lista das modificações: Vigília Pascal experimental; simplificação de rubricas; nova Semana Santa; Instrução sobre a Música Sacra; Constituição Sacrosanctum Concilium do Vaticano II; mudanças no Ordinário; permissão para a Missa versus populum; novas mudanças nas rubricas; novas Orações Eucarísticas; novo Ordinário da Missa. Abaixo falaremos brevemente dessas modificações.
3.1 Vigília Pascal experimental
Vigília Pascal experimental, preparada em 1951 introduziu mudança no horário, redução das orações para bênção do fogo, mudança no rito do círio, abolição do candelabro triplo, diminuição do número das profecias, adição do rito de renovação das promessas batismais (feito em vernáculo e de frente para o povo), supressão do Salmo 42 e do Último Evangelho. Está nova Vigília Pascal é, essencialmente, a mesma usada no Rito Novo.
3.2 Simplificação de rubricas
A simplificação das rubricas foi de feita em 1955 ainda com Pio XII e tinha caráter transitório, pois era uma preparação para a verdadeira revolução, provavelmente um teste para saber a reação do clero e dos fiéis.
As mudanças foram: a alteração do rito do domingo, supressão da maioria das vigílias e das oitavas (restaram apenas três oitavas [7]), a criação da festa do Batismo do Senhor, abolição do rito semiduples, das orações do tempo, da oração Fidelium pelas almas do purgatório e limitação para apenas três orações nas Missas (apenas duas comemorações portanto). Além disso, o Credo se dizia em menos ocasiões e o Último Evangelho sempre o Prólogo de São João.
3.3 Nova Semana Santa
Depois da experiência da nova Vigília Pascal, também em 1955, a proposta foi reformar toda a Semana Santa. Essa nova Semana Santa é exatamente a mesma que foi incorporado no Missal de João XXIII em 1962 e praticamente a mesma da Novus Ordo em 1970 [8].
3.3.1 Domingo de Ramos
Desde os primeiros séculos do Rito Gregoriano, celebravam-se duas Missas neste dia, costume tirado do Rito Antioqueno (Jerusalém).
No Missal de São Pio V, quando já não era costume celebrar mais de uma Missa no dia, restou na cerimônia da bênção dos ramos uma estrutura de uma Missa seca (Introito, Coleta, Epístola, Evangelho, Prefácio…), inclusive com estação própria. Além disso, a cerimônia espiritualmente rica à porta da igreja quando a procissão chega [9].
Como na Vigília Pascal experimental, o Salmo 42 é omitido, o celebrante ouve as leituras e não as lê (rubrica que mais tarde será mantida no Missal de 62 e extensiva a todas as Missas). Além disso, a Paixão do Senhor é diminuída e o Último Evangelho é suprimido.
3.3.2 Quinta-feira Santa
Não apenas o horário foi mudado, mas houve modificações nos ritos. O Credo, antes recitado pela solenidade do dia, e o Último Evangelho são suprimidos. Um Salmo responsorial é introduzido (como mais tarde se fará definitivamente no Rito Novo). Além disso, a cerimônia de Lava-pés é agora inserida dentro da Missa.
Por fim, a adoração ao Santíssimo no Sepulcro, que outrora era perene até a celebração da Sexta-feira Santa, apenas deve ser mantida até a meia-noite, quando as flores também devem ser removidas.
3.3.3 Sexta-feira Santa
Neste dia nunca houve nenhuma celebração litúrgica porque, como dizia o Papa Inocêncio I, os Apóstolos se esconderam por medo. Apesar disso, a Igreja instituiu certas cerimônias como uma Missa dos Catecúmenos, Orações Solenes, Adoração à Cruz e a Missa dos Pré-santificados ─ em que a hóstia consagrada é trazida do sepulcro e se faz uma espécie de missa seca [10].
A cerimônia do dia da Paixão do Senhor também sofreu inúmeras modificações nas Orações Solenes por causa do ecumenismo [11]: Oração pelos hereges e cismáticos virou Oração pela unidade dos cristãos; a Oração pelos judeus também foi modificada e a menção a sua traição à Antiga Aliança foi suprimida, juntamente com a proibição da genuflexão.
3.3.4 Sábado Santo
As cerimônias são exatamente as mesmas da Vigília Pascal experimental em 1951, sendo agora, porém, mandatória a celebração durante a noite.
3.4 Instrução sobre a Música Sacra
É importante deixar claro que a Instrução sobre a Música Sacra foi promulgada em 3 de setembro de 1958 (cerca de um mês antes do falecimento do Papa Pio XII). Apesar de pontos importantes (fomento por parte dos fiéis do uso dos missais, incentivos para que cantem as partes variáveis da Missa e para que participassem da celebração das Vésperas nas paróquias), infelizmente, o mesmo documento também promove anomalias e inovações. Veja-se abaixo:
- Missa dialogada: agora os fiéis respondem a Missa a ponto de permitir que até o Pater Noster, que sempre foi uma oração sacerdotal, seja recitado juntamente com o celebrante [12]. O culto deixa de ser uma ação do clero.
- Permissão do uso de cantos em vernáculo na Missa cantada, mesmo do texto litúrgico.
- Permissão que um leitor diga a Epístola e o Evangelho em voz alta enquanto o padre as diz em latim.
- Permissão de transformar o Introito, Ofertório e a Comunhão em “Salmo responsorial” com acréscimo de versículos.
- Introduz o papel do comentador, uma pessoa, clérigo ou leigo de bom conhecimento, que fará comentários explicativos durante os ritos da Missa.
3.5 Novo Código de Rubricas
Novo Código de Rubricas de 1960 manteve as modificações introduzidas na simplificação 1955 e adicionou outras próprias. Simplifica ainda mais as classificações das festas (o que foi mantido pelo Novo Rito que apenas modificou os nomes). Introduz a ideia de usar as rubricas para instruir sobre o escopo das cerimônias na vida espiritual, assim como o ideia de rubricas de recomendação (“é melhor que…”).
Festas “redundantes” ou historicamente duvidosas foram suprimidas [13]. Orações ao pé do Altar e o Último Evangelho serão agora suprimidos em mais ocasiões. O sacerdote não deve mais fazer vênia voltado à Cruz ao falar o Nome de Nosso Senhor ou das Pessoas da Santíssima Trindade, mas agora a faz para o Missal. O Confiteor antes da comunhão dos fiéis é suprimido [14]. A bênção ao fim da Missa também é suprimida em algumas ocasiões.
Todas essas mudanças nas novas rubricas tinham caráter transitório. Ou seja, não passavam de uma preparação para o Novo Rito.
As novas rubricas foram introduzidas na edição típica do Missal em 1962, ano que João XXIII teve a audácia de modificar o Canon da Missa [15]. Se se pode adulterar o imutável, o Canon (regra) da Missa, nada é intocável.
3.6 Constituição Sacrosanctum Concilium do Vaticano II
Constituição sobre a liturgia do Vaticano II, publicada em 1963, consolida expressões e linguagens ambíguas ou equívocas. Deve-se conservar o latim, mas também se deve usar o vernáculo. Conserva-se a tradição, mas deve-se abrir um caminho para o progresso. O gregoriano deve ser mantido, mas músicas inculturadas devem ser incentivadas. A arte sacra é louvável, mas deve-se ter cuidado com excessos que podem confundir.
Desse modo, o documento conciliar pode agradar gregos (conservadores) e troianos (progressistas). Infelizmente, entretanto, o documento foi além. A Sacrosanctum Concilium prescreve a revisão dos ritos de todos os Sacramentos, dos ritos das Exéquias e do próprio Breviário. Além disso, Constituição dá as direções que essas reformas têm que seguir. Os novos ritos devem ser feito o mais rapidamente possível, o povo deve tomar parte ativa neles, os ritos devem ser simples e breves, sem repetições inúteis. Agora os ritos também devem se adaptar à cultura dos povos e deve permitir comentadores.
O alvo principal foi o Ordinário da Missa. Sua reforma deveria englobar: tornar mais claro a natureza das suas partes, obter devota participação dos fiéis, simplificar os ritos, descartar repetições e restaurar elementos perdidos e que sejam antigos (arqueologismo).
3.7 Mudanças no Ordinário
Tudo o que foi falado no item anterior, levou às mudanças no Ordinário. Essas modificações, implementadas em 1964, ratificou mudanças já feitas em 1951-1952 e outra inovações.
Eis algumas: o celebrante não lê mais os textos cantados pelos ministros, coro ou povo; o Salmo 42 sai das Orações ao Pé do Altar (elas mesmas são omitidas se algum rito preceder a Missa); as leituras são sempre lidas voltadas para o povo; introdução da Orações dos Fiéis; a patena fica sobre o altar; a Secreta é dita em voz alta, assim como o Per ipsum; o Pai-nosso deve ser dito por todos (inclusive em vernáculo); a fórmula da comunhão é mudada [16]; o Último Evangelho é agora sempre omitido e as orações leoninas suprimidas.
O vernáculo pode ser usado em praticamente toda a Missa: as leituras; a Oração dos Fiéis; o Kyrie, o Gloria, o Credo, o Sanctus e o Agnus Dei; aclamações, saudações e formulários de diálogo; as fórmulas de comunhão; o Pai-nosso e a oração que se segue.
3.8 Permissão para a Missa versus populum
Em 1965, com o decreto Nuper edita o altar poderia ser afastado da parede para se promover a Missa voltada para o povo. Além disso, o Tabernáculo pode ser retirado do altar-mor (e colocado em algum lugar que não atrapalhe).
3.9 Novas mudanças nas rubricas
É publicada a instrução Tres abhinc annos em 1967 que incorporam mais mudanças nas rubricas. Nela se estabeleceu uma espécie de lecionário para a semana e aboliu-se definitivamente as comemorações. Ainda foi feita uma série de modificações para tornar o Ordinário da Missa mais próximo com a Nova Missa, que estava sendo finalizada.
Nesse intuito, reduziram-se as genuflexões, os ósculos, os sinais da Cruz, as inclinações de cabeça. Eliminou-se a união entre o polegar e o indicador após a consagração. A hóstia ficava na patena, a bênção ficou antes do Ite e a cor preta não era mais a cor do Réquiem. O manípulo e a oração Placeat tornaram-se opcionais.
Por fim, o Cânon deveria ser dito em voz alta, podendo ser cantado e feito em vernáculo.
3.10 Novas Orações Eucarísticas
Se dizer a regra da Missa, o Cânon, em vernáculo e em voz alta já viola a piedade e a espiritualidade do Rito Romano, uma hecatombe ainda maior foi feita em maio de 1968: Paulo VI promulgou mais três novas Orações Eucarísticas que poderia ser ditas no lugar do apostólico Cânon Romano. Agora a Missa não tinha mais uma regra.
3.11 Novus Ordo Missæ
Concomitantemente com tudo o que vinha acontecendo desde 1963 com a Constituição Sacrosanctum Concilium, o comitê de preparação do Novo Ordinário da Missa foi auxiliada por seis observadores protestantes. Depois de várias experimentações, o próprio Paulo VI aprovou a Missa nova em novembro de 1968.
Em abril de 1969 a Constituição Apostólica Missale Romanum promulga a Missa nova. Em 1970 foi publicado o novo Missal com todas as modificações citadas. Assim, chega-se à ultima fase de um movimento iniciado em 1948. Agora tem termo a destruição da Missa no Rito Gregoriano.
________________
Notas
[1] Afirmamos isso para contrapor-nos ao apedeuto argumento de que o Rito Romano, que também é conhecido como Rito Tridentino, é um Rito jovem, já que esse Concílio é da história recente da Igreja. Veremos mais a frente que o Concílio não fez um novo Rito, mas reabilitou o Rito Gregoriano original.
[2] Sacramentário, também chamado de liber sacramentorurm ou mysteriorum, é o livro litúrgico usado no gérmen do Rito Latino. Ele continha as partes da Missa cuja recitação competia somente ao celebrante (orações, Prefácio, Cânon) e frequentemente também os formulários dos Sacramentos que se realizam em união com a Missa. Em suma, é o antecessor dos missais.
[3] É exatamente o que se observa na Liturgia da Missa Nova. Ou melhor, é um pouco pior, pois agora cada padre tem sua variação do Rito. Não existem duas Missas Novas iguais.
[4] Breviário é o livro que contém o Ofício ou Ofício Divino, oração que a Igreja como vassalagem de adoração e louvor, oferece todos os dias a Deus, por intermédio de seus ministros (o clérigo, desde a ordenação para subdiaconato, e os religiosos com votos solenes), em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e em seu próprio nome.
[5] Rito dos Santos Padres. Aqui cai por terra o argumento modernista que a Missa Tridentina (ou Missal Tridentino) remonta ao século XVI, como falamos na nota 1. O Papa deixa claro que aquele Missal restitui o Rito dos Santos Padres. Ou seja, o Rito Romano é o Rito Gregoriano, tão antigo e venerável quanto qualquer Rito Oriental. O fato de se usar o termo Missal Tridentino diz respeito a ter sito sintetizado e restituído pela autoridade do Concílio de Trento que, ratificamos, não criou um novo Rito, mas tão somente retornou ao Rito Gregoriano.
[6] Para aqueles que quiserem aprofundar-se sobre o modernismo e sua nefasta consequência, recomendamos o texto Modernismo na Igreja.
[7] Que se mantiveram no sistema de rubricas de 1960. O Novo Rito deixou apenas duas.
No total foram suprimidas 10 vigílias e 14 oitavas.
[8] Sobre a reforma da Semana Santa temos uma série de texto no site que podem servir de complemento (Ramos; Trevas; Ceia; Paixão; Vigília) ou aprofundamento (A Desastrosa Reforma da Semana Santa).
[9] Dois coros cantam o Gloria laus, um dentro e outro fora da igreja, simbolizando os Anjos e os Patriarcas libertos pelo Cristo. A igreja está de portas fechadas, porque o Céu estava fechado para a criatura após o pecado. O subdiácono bate à porta com a cruz, porque foi através dela que os Céus se abriram ao homem pecador, que é aberta e então a procissão entra na igreja.
[10] É interessante frisar que existe uma cerimônia como a Missa dos Pré-santificados em todos os Ritos católicos.
[11] Não poderia deixar de destacar que, na reforma, o missal, durante essa parte da celebração, fica agora no meio do Altar, o que é uma aberração no Rito Romano.
[12] Seria isso o fim da assistência dos fiéis em direção à famigerada participação ativa tão louvada no Rito Novo?
[13] São exemplos: Invenção da Santa Cruz, São João à Porta Latina, Aparição de São Miguel, Cátedra de São Pedro em Antioquia, Correntes de São Pedro. A lista é ainda maior.
[14] Uma prova da desobediência generalizada dos “tradicionalistas” é a desconsideração dessas rubricas (todos fazem como nas rubricas antigas). É um triste sinal do que vivemos hoje: a Liturgia virou um bibelô, refém da arbitrariedade pessoal. Mais do que estado de necessidade vivemos o estado de rebeldia.
[15] O pedido de modificação já fora rejeitado em 1815. Apesar da petição se tratar do nome do grande Patriarca São José e de enxergamos o zelo e a devoção ao pai putativo de Nosso Senhor e Esposo da Virgem Maria, ela foi negada porque somente mártires são citados no Canon Romano, além do fato de que essa oração é a regra imutável da Missa que, como veremos, remonta São Pedro.
[16] Já comentáramos isso em outro texto. Reproduzimo-lo:
Para a recepção da Eucaristia, ou seja, a comunhão a fórmula usada é: [Que o] Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo guarde a tua alma na vida eterna. Amém.
Como é costume no Rito Romano a forma sempre encerra em si o efeito imediato do Sacramento recebido. Esse fato não é verificado na reforma de Paulo VI — a fórmula usada é tão somente «Corpo de Cristo» —, constituindo mais uma ruptura na tradição romana (Sacramento da Eucaristia parte 1 de 2, nota 10, destaques nossos).