RCC E SEU ERRO CRASSO SOBRE OS CARISMAS

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O movimento Renovação Carismática Católica busca em demasia certos dons divinos que, segundo todos os teólogos, não deveriam ser buscados em si, pois não são causa de santificação. Aqui continuamos na linha dum texto anterior que começa a dar sinais dos perigos deste movimento de protestantismo dentro da Igreja de Cristo.

A Graça

A ação de Deus, Nosso Senhor, se dá por Sua inteligência, na qual tudo conhece e por isso diz-se ser Ele onisciente, e por Sua vontade, que pode todo o possível e por isso diz-se ser Ele onipotente. Deus é bom e Sua vontade é, pois, boa.

A bondade divina se reveste de diversas formas e segundo elas toma diferentes nomes. A graça, neste ponto de vista, é a manifestação da vontade bondosa de Deus quando nos dá auxílios sobrenaturais, ou seja, nos conduz a nosso fim último, a salvação eterna.

É sobre esta visão da graça que reside o problema da RCC. Segundo Santo Tomás, enquanto vontade salvadora de Deus, a graça é única (De virit. q. 27, a.5). Entretanto, tal vontade, nos homens, tem efeitos diversos, como ensina São Paulo (cf. ICor 12,1ss).

Tomando o ensinamento paulino, passaremos agora à divisão da graça de acordo a escolástica.

Divisão clássica da graça

A graça, de maneira geral, pode ser dividida em dois grandes grupos: incriada (gratia increata) e criada (gratia creata). A graça incriada é o próprio Deus, ou melhor, a vontade divina que é a causa de toda graça. A graça criada é o termo temporal da vontade de amor de Deus, um dom criado, enquanto distinto essencialmente d’Ele.

Entre as graças criadas, há a natural (gratia naturalis) e a sobrenatural (gratia supernaturalis).

  • A graça natural é o efeito da vontade divina que nos chega pelas criaturas ou dada a nossa natureza (assim são o ar, a riqueza, a comida, a razão). Ela nos serve para a vida natural, para sua existência e conservação.
  • A graça sobrenatural é a que nos vem por meio da redenção operada por Nosso Senhor Jesus Cristo. É a graça sobrenatural a que comumente chamamos «graça». Tem esse nome em contraposição à natural porque, primeiramente supõe a natureza e cria, constrói e realiza a vida eterna. Assim os dons naturais são devidos, os sobrenaturais gratuitos.

Evidentemente, trataremos aqui apenas da graça sobrenatural, pois ela é o alvo de estudo na Teologia. A graça sobrenatural ainda se divide em graça de santificação (gratia gratum faciens) e carisma (gratia gratis data) [1].

  • A graça de santificação é o dom concedido pessoalmente, para santificação própria.
  • O carisma é graça de ministério, para edificação dos outros.

Toda graça é gratuita, mas nos carismas essa gratuidade se manifesta de maneira mais pródiga. Eles são dados arbitrariamente sem necessidade de merecimento algum da parte do sujeito, ou seja, independente do valor pessoal ou mesmo moral: é dado mesmo a indignos. Lemos carismas dados a Judas, Caifás, a discípulos infiéis:

Um deles, chamado Caifás, que era o sumo sacerdote daquele ano, disse-lhes: Vós não entendeis nada! Nem considerais que vos convém que morra um só homem pelo povo, e que não pereça toda a nação. E ele não disse isso por si mesmo, mas, como era o sumo sacerdote daquele ano, profetizava que Jesus havia de morrer pela nação, e não somente pela nação, mas também para que fossem reconduzidos à unidade os filhos de Deus dispersos (Jo 11,49-52).

Muitos Me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não pregamos nós em Vosso nome, e não foi em Vosso nome que expulsamos os demônios e fizemos muitos milagres? E, no entanto, Eu lhes direi: Nunca vos conheci. Retirai-vos de mim, operários maus! (Mt 7,22s).

Desnecessário ressaltar que a graça de santificação é mais preciosa que o carisma, porque ela somente é capaz de levar o homem a seu fim, que é a bem-aventurança:

Fazem todos milagres? Têm todos a graça de curar? Falam todos em diversas línguas? Interpretam todos? Aspirai aos dons superiores. E agora, ainda vou indicar-vos o caminho mais excelente de todos: a Caridade (I Cor 12,30s).

Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos estão sujeitos, mas alegrai-vos de que os vossos nomes estejam escritos nos céus (Lc 10,20).

Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver Caridade, não sou nada (I Cor 13,2).

Só ela deve, portanto, ser buscada e almejada, não os carismas. Por isso a graça de santificação é concedida a todos, pois “Deus quer que todos os homens se salvem” (I Tm 2,4), enquanto que o carisma, a alguns [2].

Divisões da graça de santificação

A graça de santificação ainda pode ser atual ou habitual.

  • A graça atual (gratia actualis) é um auxílio divino transitório à alma, iluminando o intelecto ou movendo o querer em direção a nosso bem espiritual.
  • A graça habitual (gratia habitualis) é a permanência no sujeito, criando um estado de graça. Na graça habitual estão a graça santificante, que torna o homem justo e herdeiro do céu, os hábitos das virtudes espirituais, especialmente as teologais, e os dons do Espírito Santo.

A graça atual tem duas íntimas relações com a habitual: prepara a alma para possuí-la e, possuindo, conserva, aumenta e torna-a fecunda [3].

Classificações da graça atual

Ainda, a graça atual recebe nomes diferentes, segundo o aspecto que a encaramos (são quatro).

I. Quanto ao modo:
exterior (gratia externa) quando não adere à alma como forma, mas age do exterior e, por isso, tem influência apenas moral; são exemplos: a vida de Cristo, Seu Evangelho e milagres, a vida exemplar dos Santos [4] etc.; interior (gratia interna) quando toca a alma, levando suas potências acima de si mesma e, por isso, tem influência física. Ambas estão unidas entre si, já que a graça exterior visa efeitos interiores e prepara-os e torna-lhes capaz à alma.

II. Pelos efeitos:
medicinal (gratia medicinalis) quando prepara a alma para a vida sobrenatural, removendo obstáculos naturais como a ignorância, a concupiscência e as feridas do pecado original; elevante (gratia elevans) quando faz passar as potências da alma ao plano superior, tornando-a capaz de realizar atos sobrenaturais. Os atos de vida eterna se tornam possíveis por sua causa.

III. Quanto ao momento da dádiva ou quanto à vontade livre:
preveniente, antecedente ou operante (gratia præveniens ou gratia operans) quando condiciona a ação no seu princípio, enquanto antecede a livre decisão e excita a vontade (opera em nós sem que operemos com ela – in nobis, sine nobis); concomitante, consequente ou cooperante (gratia concomitans ou gratia cooperans) quando condiciona na realização, enquanto dá ao homem a força de perseverar na boa obra (opera em nós com o concurso da vontade – in nobis, cum nobis).

IV. Quanto aos efeitos:
suficiente (gratia sufficiens) quando não produz o efeito, embora habilite perfeitamente para tal; eficiente (gratia efficax), quando produz o devido resultado [5].

*

Vemos como suficiente este pequeno texto para que se rememore o que é a graça e qual seu papel em nossa alma, principalmente sua muito maior excelência (“multum excellentior”) em comparação com o carisma (cf. S.T., I-II, q. 111, a. 4) e, consequentemente, o erro crasso e flagrante da RCC.

________________
Notas

[1] É exatamente neste ponto que reside o problema da RCC.

[2] Novamente um condenação expressa ao movimento é vista agora nas próprias Escrituras. No texto anterior, já aludido no início deste, viu-se tal condenação pela Magistério de um Padre da Igreja, o Papa São Gregório Magno.

[3] O desprezo da graça atual é vista hodiernamente entre os católicos. Nesse tempo de crise, o desapreço por essa graça se vê, agigantadamente, no novo rito da Missa (em breve publicaremos um texto que desenvolva essa afirmação).

[4] Não é de mais deixar claro que se fala aqui dos Santos verdadeiro, cuja vida são exemplos de vida católica. Sugerimos os seguintes textos: algumas considerações sobre as canonizações, a figura do advogado do diabo e um exemplo do desastre das novas canonizações.

[5] Aqui reside a polêmica secular entre tomismo e molinismo, ou seja, quanto a Deus como ato puro e à liberdade da vontade humana (também será, no futuro, algo e algumas considerações nossas): se a graça é irresistível, como afiram os tomistas, como fica a liberdade do homem? se a graça age em concurso com a vontade humana, como Deus tudo governa pela Providência de Sua vontade?

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