II ARTIGO: JESUS CRISTO

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Diz o Símbolo niceno–constantinopolitano: “[creio] em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não criado, consubstancial ao Pai. Por Ele todas as coisas foram feitas”.

É uma constante nas Escrituras que o nome designe algo da missão daquele que o porta. Por isso, não raras vezes, alguns personagens têm seu nome mudado por Deus. Seguindo essa ideia, também o nome de Nosso Senhor revela Sua missão temporal: o nome Jesus (do hebraico) significa Salvador.

O nome Cristo (do hebraico messias) significa Ungido. No antigo Testamento apenas os reis, os sacerdotes e os profetas eram ungidos por ordem expressa de Deus. Nosso Senhor é o verdadeiro ungido, se mostrando assim o perfeito rei, o perfeito sacerdote e o perfeito profeta:

Ao gênero humano perdido, misericordiosa e fielmente, prometestes [Cristo] como Salvador para Sua verdade instruir os néscios; Sua santidade justificar os ímpios; Sua força governar os fracos (Prefácio do Advento – galicano).

Os reis são aqueles a quem são confiados o poder de governar o povo, salvaguardar a lei e proteger os mais fracos e inocentes (os Bispos):

Vosso senhor Saul morreu, e a casa de Judá me ungiu por seu rei (I Sm 2,7).

Os sacerdotes são aqueles que, por meio de preces, recomendam o povo a Deus e Lhe oferecem sacrifícios de reparação (os presbíteros):

Ungirás Aarão e seus filhos, e os consagrarás, para que me sirvam como sacerdotes (Ex 30,30).

O profeta é aquele que é enviado como intérprete e mensageiro de Deus para falar a seu povo assuntos por Ele revelados, advertindo o povo com conselhos (por vezes predições do futuro), exortando à regeneração dos bons costumes (os diáconos):

O espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor consagrou-me pela unção; enviou-me a levar a boa nova aos humildes, curar os corações doloridos, anunciar aos cativos a redenção, e aos prisioneiros a liberdade (Is 61,1).

Cristo é o Rei dos reis primeiramente porque é Deus; é Rei como homem porque remiu, em Sua humanidade, tudo o que a natureza humana podia comportar de poder, grandeza e dignidade. Remiu também o universo inteiro, conquistando assim a realeza e o domínio sobre todas as criaturas. Seu reinado é espiritual:

Respondeu Jesus: O Meu Reino não é deste mundo (Jo 18,36).

Exerce o Seu reinado espiritual em Sua Igreja e, por ela, na sociedade inteira, pois Seu senhorio tem de ser reconhecido por todos os homens e povos. Seu reino culminará no outro século:

Reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim (Lc 1,32s).

Cristo é o Sumo Sacerdote porque é o único que pode oferecer um sacrifício único e eterno que é agradável a Deus trino e uno. Seu sacrifício é o único capaz de agradar e aplacar a Deus:

Assim também Cristo não Se atribuiu a Si mesmo a glória de ser pontífice. Esta lhe foi dada por Aquele que Lhe disse: Tu és meu Filho, Eu hoje Te gerei, como também diz em outra passagem: Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque. E uma vez chegado ao Seu termo, tornou-Se autor da salvação eterna para todos os que Lhe obedecem, porque Deus o proclamou sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque (Hb 5,5-6.9-10).

Cristo é o Verdadeiro Profeta porque foi enviado para anunciar a plenitude da Revelação de Deus. Todos os profetas que O precederam, tiveram como missão preparar e anunciar aos homens o Profeta por excelência, que viria salvar e reger toda a humanidade.

A multidão respondia: É Jesus, o profeta de Nazaré da Galileia (Mt 21,11).

Foi-Lhe dado o livro do profeta Isaías. Desenrolando o livro, escolheu a passagem onde está escrito: O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque Me ungiu; e enviou-Me para anunciar a boa nova aos pobres, para sarar os contritos de coração, para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para pôr em liberdade os cativos, para publicar o ano da graça do Senhor. E enrolando o livro, deu-o ao ministro e sentou-Se; todos quantos estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nEle. Ele começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu este oráculo que vós acabais de ouvir (Lc 4,17-21).

A tripla unção de Nosso Senhor se deu apenas enquanto homem, pois enquanto Deus não precisava. Sua unção não foi material, com óleo, mas espiritual, com o próprio Espírito Santo. Também não foi feita por homem, mas pelo próprio Deus. Em Sua alma derramou-se tão plenamente a graça, a virtude e os dons de Deus, que foi inundada em singular plenitude a nenhuma outra criatura foi ou poderia ser feito:

[A Virgem] que concebeu o Vosso Unigênito sob a sombra do Espírito Santo e, permanecendo com a glória da virgindade, deu ao mundo a luz eterna, Jesus Cristo Nosso Senhor (Prefácio de Nossa Senhora).

Vosso Unigênito, concebido sob a sombra do Espírito Santo, Jesus Cristo, Nosso Senhor (Prefácio de São José).

Amais a justiça e detestais o mal, pelo que o Senhor, Vosso Deus, Vos ungiu com óleo de alegria, preferindo-Vos como a nenhum dos Vossos companheiros (Sl 44,8).

Cristo é ungido, portanto, com a plenitude do Espírito Santo. Mas não é apenas um homem ungido, mas o próprio Filho de Deus, pois “nEle habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2,9), assim “aprouve a Deus fazer habitar nEle toda a plenitude” (Cl 1,19); por isso “todos nós recebemos da Sua plenitude graça sobre graça” (Jo 1,16).

Dizer que Jesus é o Filho de Deus significa dizer que Ele é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, ou seja, que Ele é Deus assim como o Pai e o Espírito Santo. E sua divindade é atestada:

Veio uma nuvem luminosa e os envolveu. E daquela nuvem fez-se ouvir uma voz que dizia: Eis o Meu Filho muito amado, em Quem pus toda Minha afeição; ouvi-o (Mt 17,4).

No momento em que Jesus saía da água, João viu os céus abertos e descer o Espírito em forma de pomba sobre Ele. E ouviu-se dos céus uma voz: Tu és o Meu Filho muito amado; em Ti ponho Minha afeição (Mc 1,10s).

Mas Jesus Se calava e nada respondia. O sumo sacerdote tornou a perguntar-lhe: És tu o Cristo, o bendito Filho de Deus vivo? Jesus respondeu: EU SOU. E vereis o Filho do Homem sentado à direita do poder de Deus, do Todo-poderoso, vindo sobre as nuvens do céu. O sumo sacerdote rasgou então as suas vestes. Para que desejamos ainda testemunhas? Blasfemou! (Mt 26,63-65; Mc 14,61-63).

É este de Quem eu disse: Depois de mim virá um homem, que me é superior, porque existe antes de mim (Jo 1,30).

Se não crerdes que EU SOU, morrereis no vosso pecado (Jo 8,24).

Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: antes que Abraão fosse, EU SOU (Jo 8,58).

Os judeus responderam-lhe: Não é por causa de alguma boa obra que Te queremos apedrejar, mas por uma blasfêmia, porque, sendo homem, Te fazes Deus (Jo 10,33).

Responderam: A Jesus de Nazaré. EU SOU, disse-lhes. Também Judas, o traidor, estava com eles. Quando lhes disse EU SOU, recuaram e caíram por terra (Jo 18,5s).

Para os incrédulos, cujas inteligências o deus deste mundo obcecou a tal ponto que não percebem a luz do Evangelho, onde resplandece a glória de Cristo, que é a Imagem de Deus (II Cor 4,4).

Ele é a Imagem de Deus invisível, o Primogênito de toda a criação. Foram criadas nEle todas as coisas nos céus e na terra, as criaturas visíveis e as invisíveis. Tronos, Dominações, Principados, Potestades: tudo foi criado por Ele e para Ele. Ele existe antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem nEle (Cl 1,15-17).

Esplendor da glória de Deus e Imagem do Seu ser, sustenta o universo com o poder da Sua palavra. Depois de ter realizado a purificação dos pecados, está sentado à direita da Majestade no mais alto dos céus, tão superior aos Anjos quanto excede o deles o nome que herdou. Pois a quem dentre os Anjos disse Deus alguma vez: Tu és meu Filho; eu hoje te gerei (Sl 2,7)? Ou então: Eu serei Seu Pai e Ele será Meu Filho (II Sm 7,14)? E novamente, ao introduzir o Seu Primogênito na terra, diz: Todos os Anjos de Deus O adorem (Sl 96,7). Por outro lado, a respeito dos anjos, diz: Ele faz dos seus Anjos sopros de vento e dos Seus ministros chamas de fogo (Sl 103,4), ao passo que do Filho diz: O Teu trono, ó Deus, subsiste para a eternidade. O cetro do Teu Reino é cetro de justiça. Amaste a justiça e odiaste a iniquidade. Por isso, ó Deus, o Teu Deus Te ungiu com óleo de alegria, mais que aos teus companheiros (Sl 44,7s); e ainda: Tu, Senhor, no princípio dos tempos fundaste a terra, e os céus são obra de tuas mãos. Eles passarão, mas Tu permaneces. Todos envelhecerão como uma veste; Tu os envolverás como uma capa, e serão mudados. Tu, ao contrário, és sempre o mesmo e os Teus anos não acabarão (Sl 103,26s). Pois a qual dos Anjos disse alguma vez: Assenta-Te à Minha direita até que Eu ponha os Teus inimigos por escabelo dos Teus pés (Sl 109,1)? Não são todos os Anjos espíritos ao serviço de Deus, que lhes confia missões para o bem daqueles que devem herdar a salvação? (Hb 1).

Cristo também é chamado de Senhor, quer dizer, aquele que tem pleno domínio sobre tudo. De modo absoluto, apenas Deus é Senhor. Desse modo, a Igreja confessa, pelo senhorio de Jesus Cristo, a Fé inabalável em Sua divindade. Logo, Jesus é verdadeiramente Nosso Senhor porque é Deus e porque, juntamente com o Pai e o Espírito Santo, criou-nos do nada.

Ele também é Nosso Senhor enquanto homem, pois que nos remiu com o Seu sangue preciosíssimo e pela comunicação de propriedade, devido à união hipostática [1]:

Por causa da Encarnação Deus O exaltou soberanamente e Lhe outorgou o Nome que está acima de todos os nomes, para que ao Nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra e nos infernos. E toda língua confesse, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor (Fl 2,8-11).

*

Heresias cristológicas

  • Fotino, que dizia ser Cristo um homem como qualquer outro. Negando, pois, que Ele é Filho de Deus segundo a natureza e que começou a existiu no tempo. Por isso os Padres acrescentaram ao Símbolo: “Filho Unigênito de Deus” e “nascido do Pai antes de todos os séculos” e “desceu dos Céus”:

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus (Jo 1,1).

Pois desci do céu não para fazer a Minha vontade, mas a vontade dAquele que Me enviou (Jo 6,38).

  • Ário (séc. IV), presbítero de Alexandria, dizia que não havia uma igualdade de natureza entre Deus Pai e Cristo, sendo Este um ser pré-existente e criado, embora a primeira e mais excelsa de todas as criaturas: essa é a heresia do arianismo, que fez a Igreja cair numa de suas maiores crises de Fé. Os Padres do Concílio de Niceia afirmaram “gerado, não criado, consubstancial ao Pai. Por Ele todas as coisas foram feitas”:

O Pai e Eu somos um (Jo 10,30).

Porque três são os que testemunham no céu: o Pai, o Verbo e o Espírito Santo; e estes três são um só [Deus] (I Jo 5,7).

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Nota

[1] Ou união na hipóstase, ou seja, pessoa (na Segunda Pessoa divina). O texto do III artigo versará mais sobre este mistério.

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