SACRAMENTO DA ORDEM

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Estamos colocando paulatinamente textos sobre os pontos do catecismo. Por isso, o assunto Sacramento só entraria em pauta mais tarde.

Contudo, o Papa Francisco não desiste: já escandalizou os católicos com sua declaração ecumênica e com a possibilidade de divorciados recasados comungarem. Agora quer alterar a doutrina sacramental no tocante à ordenação.

Desde a notícia de que o Papa Francisco pensa em instituir uma comissão para analisar a possibilidade do diaconato feminino, pareceu-nos oportuno e de mister lembrarmos qual é a doutrina da Igreja sobre o sexto Sacramento.

***

Após expor a doutrina dos demais Sacramentos, vem a seguinte pergunta: quem é capaz de administrar esses sinais eficazes da graça? Deve então existir um Sacramento que confira ao fiel um poder extraordinário e divino. Tal Sacramento é a Ordem.

A Ordem é o Sacramento que dá o poder de exercitar os ministérios sagrados que se referem ao culto de Deus e à salvação das almas; esse poder muda a alma de quem o recebe, em outras palavras, imprime caráter [de ministro de Deus].

Entretanto, apenas Nosso Senhor Jesus Cristo pode conferir a graça (como se pode ver neste texto item 4). Donde se conclui que a Ordem configura o sujeito a Cristo, comunicando-lhe algo daquele poder de santificar que apenas Ele possui.

Assim, o Logos foi ungido ReiSacerdote e Profeta no exato momento em que, embora sendo de condição divina, aniquilou-Se a Si assumindo a condição de escravo (cf. Fl 2,6s), dando cumprimento ao inefável mistério da Encarnação (iniciando, portanto, nossa Redenção). Cristo é, por conseguinte, o «Ungido» por excelência, porque não o foi com óleo, mas com o próprio Espírito Santo.

O profetismo de Cristo se realizou em toda a Sua vida pública (que durou três anos), em que Ele elevou à perfeição a antiga Lei sem, no entanto, mudá-la (cf. Mt 5,18). Já Seu sacerdócio teve como ato supremo o Altar erguido no cimo do Calvário (e na última Ceia) onde se mostrou verdadeiro Sacerdote e única Vítima de expiação dos pecados dos homens perante Deus, Seu Pai onipotente. Por fim, seu reinado, modestamente iniciado com Seus discípulos e Apóstolos, mas já se realizado plenamente em Sua Igreja (cf. Mc 4,31ss) e deve estender-se na sociedade e culminar no bem-aventurança celeste.

Como Rei, Nosso Senhor transmite à Igreja o poder de governar as almas (munus regendi).

Como Sacerdote, Nosso Senhor transmite à Igreja o poder de justificar as almas (munus sanctificandi).

Como Profeta, Nosso Senhor transmite à Igreja o poder de ensinar a Sua Doutrina (munus docendi).

Esses múnus de Cristo são dados, pela Igreja, aos ordenados, seus ministros, em vista à salvação das almas. Somos, de fato, santificados pela pregação da sã doutrina (Cristo Profeta), pelo recebimento dos Sacramentos, especialmente os dos mortos (Cristo Sacerdote) e pelo governo das autoridades hierárquicas e das leis da divina sociedade, que é a Igreja (Cristo Rei).

Uma vez que de Cristo, seu Esposo, a Igreja recebeu o tríplice múnus, pelo Sacramento da Ordem ela os confere a seus ministros, concedendo-os a dignidade de instrumentos usados por Cristo, único que goza da plenitude do Magistério, do Sacerdócio e do Governo. Daí que vem a eficácia dos Sacramentos da Nova Lei.

Como prova da sacramentalidade e instituição da Ordem, pode-se mencionar:

  1. A autoridade da Sagrada Escritura: Lc 22,19; Jo 20,23.
  2. A autoridade da Sagrada Tradição, pois que tal doutrina é aceita universalmente pelos Padres, ocidentais e orientais.

Diante do exposto, o Sacramento da Ordem é composto por três graus ou ordens sacras, a saber, o Diaconato (At 8,5ss), o Presbiterado (Tg 5,14) e o Episcopado (Mt 16,18; 18,18; At 8,14ss). Essas três realidades não são degraus, mas graus diversos do único Sacramento da Ordem.

Do que foi dito, fica claro que às mulheres é vetada a elevação ao estado clerical, precisamente porque Cristo é do sexo masculino e por causa da estreita relação desse Sacramento com Ele. Ora, se a ordenação sacramental fosse possível a uma mulher [1], a Mãe de Deus seria a primeira dos Apóstolos e não São Pedro.

Não se acha nas Escrituras nenhuma referência à admissão de mulheres às ordens sacras. Tampouco na prática constante das Igrejas do oriente e do ocidente, seja de língua latina ou grega, se encontram relatos das ordens sagradas serem conferidas às mulheres.

A Tradição confirma, através de Santo Epifânio, Arcebispo de Salamina e da Ilha de Chipre (séc. IV):

Se no Novo Testamento as mulheres fossem chamadas a exercer o sacerdócio ou algum outro ministério canônico, a Maria deveria ter sido confiado, em primeiro lugar, o ministério sacerdotal; Deus, porém, dispôs as coisas diversamente; não lhe conferiu nem mesmo a faculdade de batizar. Quanto à categoria das diaconisas, existente na Igreja, não foi destinada a cumprir funções sacerdotais ou outras similares. As diaconisas são chamadas a salvaguardar a decência que se impõem no tocante ao sexo feminino, seja cooperando na administração do Sacramento do Batismo, seja examinando as mulheres afetadas por alguma enfermidade ou vítimas de violência, seja intervindo todas as vezes que se trate de descobrir o corpo de outras mulheres a fim de que o desnudamento não seja exposto aos olhares dos homens que executam as santas cerimônias, mas seja considerado unicamente pelo olhar das diaconisas (Panarion LXXIX 3).

Também o Magistério do Papa São Sotero aos Bispos da Itália (séc. II):

Foi comunicado a esta Sé Apostólica que algumas mulheres consagradas a Deus e religiosas tomam a liberdade, nas vossas regiões, de tocar nos vasos sagrados e nas santas palas e de incensar o altar ao redor. Tal prática abusiva e digna de censura merece a rejeição de todo homem sábio. Consequentemente, no exercício da autoridade desta Santa Sé ordenamos que essas coisas sejam radicalmente supressas dentro de um prazo mínimo e, a fim de que não se repitam, mandamos que quanto antes sejam banidas das vossas províncias (Citado pelo pseudo Isidoro, Coletânea de leis do século IV).

Conclui-se, pois, a verdade de que a prática universal da Igreja JAMAIS ordenou alguma mulher.

*

  • Os efeitos da Ordem:

A graça santificante segunda e a graça sacramental que outorga a ajuda necessária para exercer dignamente o ministério próprio da Ordem recebida; impressão do caráter indelével de ministro de Deus e a conferência de um poder espiritual diverso para as diversas ordens.

  • Matéria:

A imposição de mãos do Bispo para qualquer um dos três graus (para o Diaconato: a imposição das mãos do Bispo; para o Presbiterado: a primeira imposição das mãos do Bispo, feita em silencio; e para a sagração ao Episcopado: a imposição das mãos feita pelo Bispo consagrante).

  • Forma: [2]

Consiste nas palavras da Prefação, das quais as essenciais e, por isso, exigidas para a validade são (cf. Constituição apostólica Sacramentum ordinis do Papa Pio XII, Denz. 2301):

Para o Diaconato:

ENVIAI SOBRE ELE, SENHOR, NÓS VOS PEDIMOS, O ESPÍRITO SANTO QUE O FORTALEÇA COM OS SETE DONS DA VOSSA GRAÇA, A FIM DE EXERCER COM FIDELIDADE O VOSSO MINISTÉRIO.

Para o Presbiterato:

NÓS VOS PEDIMOS, PAI TODO-PODEROSO, CONSTITUÍ ESTE VOSSO SERVO NA DIGNIDADE DE PRESBÍTERO; RENOVAI EM SEU CORAÇÃO O ESPÍRITO DE SANTIDADE; OBTENHA, Ó DEUS, O SEGUNDO GRAU DA ORDEM SACERDOTAL, QUE DE VÓS PRECEDE, E SUA VIDA SEJA EXEMPLO PARA TODOS.

Para a sagração ao Episcopado [3]:

COMPLETA EM VOSSO SACERDOTE O SUMO ALTO GRAU DO VOSSO MINISTÉRIO E SANTIFICAI COM O ORVALHO DO UNGUENTO CELESTE AQUELE QUE JÁ TEM OS ORNAMENTOS DA VOSSA GLORIFICAÇÃO.

  • Ministro:

Qualquer Bispo validamente ordenado e somente ele.

  • Sujeito:

Para a validade, “só o varão batizado recebe validamente a ordenação” (CDC, cân. 1024); se adulto requer a intenção de receber o Sacramento.

________________
Notas

[1] Existe a “celeuma” sobre as diaconisas e episcopisas. De maneira imediata, as expressões diziam respeito às mulheres que auxiliavam os clérigos na administração dos Sacramentos por uma questão de pudor; eram como as primeiras freiras. Reproduzimos aqui parte de um bom texto sobre o assunto:

Eram [as diaconisas] matronas que, por motivo de decoro, ajudavam no batismo das mulheres, que se fazia por imersão, entrando na água com elas, sustentando-as e ungindo-as com óleo. Ajudavam também na catequese das mulheres, visitavam mulheres jovens doentes, acompanhavam mulheres que tinham de conversar com bispos, presbíteros ou diáconos, indicavam o lugar delas na igreja, evitavam que elas cochilassem durante as cerimônias (nos tempos primitivos, devido às perseguições, as celebrações eram feitas de madrugada), e assim por diante. As diaconisas eram geralmente viúvas, virgens consagradas ou esposas de presbíteros, bispos ou diáconos. O Concílio de Calcedônia (451) estabeleceu que as mulheres deveriam ter pelo menos 40 anos de idade para serem consagradas como diaconisas.

[2] A fim de comparação e enriquecimento, expomos aqui as formas da Ordem para o rito Bizantino:

Diaconato:

Vós, ó Senhor de todas as coisas, cumulai Vosso servo N. de fé, caridade, força e santidade, pela infusão do Vosso Santíssimo e Vivificador Espírito; ele, que julgaste digno do ministério diaconal.

Presbiterato:

Ó Deus, poderoso, incompreensível admirável em Vossos desígnios sobre os filhos dos homens, Senhor, enchei do dom de Vosso Espírito Santo, Vosso servo N., aqui presente que Vos dignaste conduzir para o sacerdócio, para que se mantenha irrepreensível diante de Vosso altar, e seja digno de proclamar o Evangelho de Vosso Reino, pregar a Vossa palavra de verdade, oferecer-Vos dons e sacrifícios espirituais, e restaurar Vosso povo nas águas da regeneração.

Episcopado:

Vós, pois, Senhor do universo, concedei Vosso apoio a este Vosso servo, que elegemos e consideramos digno do jugo do Vosso Evangelho e de confiar a ele o serviço episcopal, pela imposição de minhas mãos indignas e as de meus concelebrantes e irmãos no episcopado aqui presentes. Fortalecei-o com a infusão, a força e a graça do Vosso Santíssimo Espírito, como fortalecestes os Apóstolos, Profetas e Santos, como ungistes os reis e como santificastes os sumos sacerdotes.

[3] No rito de Paulo VI, a forma secular da Igreja romana foi mudada para uma usada por Santo Hipólito (séc. III), mas ainda de uso nas tradições copta alexandrina, siro-ocidental e maronita (isso, de per si, é suficiente para derrubar qualquer argumento acerca da [suposta] invalidade intrínseca da nova forma de uso romano). Ei-la:

Enviai agora sobre este eleito a força que de Vós procede, o Espírito Soberano, que destes ao Vosso Amado Filho, Jesus Cristo, e Ele transmitiu aos Santos Apóstolos, que fundaram a Igreja por toda a parte, como Vosso Templo, para glória e perene louvor do Vosso Nome.

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