CÂNON DE SANTO HIPÓLITO E A PRECE II

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Os modernistas e os conservadores têm como discurso em defesa das aberrações que são a criação (ou inserção) de outras Preces Eucarísticas no rito Romano r(d)eformado que a Prece II é o Cânon de Santo Hipólito. Entretanto, tal foto é mentiroso como mostrará o texto abaixo. No post scriptum, publicaremos a tradução do verdadeiro Cânon de Santo Hipólito.

Fonte: Canon de Santo Hipólito?

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Canon de Santo Hipólito?

Entre as inovações que vimos depois do Vaticano II está a composição das novas orações eucarísticas, uma quebra com mais de 1.400 anos de história do rito romano, que só pode ser entendida como a concretização do espírito de arqueologismo litúrgico e da prepotência dos modernistas.

No rol de novidades, destaca-se a Oração Eucarística II, que acabou se tornando a mais conhecida na medida em que é a mais curta e, desse modo, se ajusta àquele tipo de “disposição” que os sacerdotes celibatários tem para com o “povo de Deus”. A legislação a descreve como “mais indicada para dias de semana ou ocasiões especiais” (1). Ela tem seu próprio Prefácio, mas pode ser usada com outros.

Devido à sua alegada antiguidade, ela supostamente tem um apelo ecumênico com os protestantes. Sua fonte putativa é a Tradição Apostólica,um texto litúrgico atribuído a Santo Hipólito, um anti-papa e mártir do terceiro século (ele foi anti-papa, mas depois voltou à ortodoxia e morreu na mão dos perseguidores da Igreja), reconstruído por D. Bernard Botte OSB.

Esse texto não foi usado integralmente.

Alegava Bugnini (2) que isso se deu pelo fato dele não ter o Sanctus, uma epiclese antes da consagração, uma comemoração dos santos e intercessões (esses elementos se desenvolveram posteriormente). Só com esse dado, notamos intuitivamene o tanto de coisas que não têm a origem proclamada; segundo Michael Davies, em inglês, depois do Sanctus, existem 48 linhas (excluídas as aclamações e a parte referente aos mortos) que estão assim distribuídas quanto à origem:

  • 30 são similares ou idênticas às do Canon Romano;
  • 7 correspondem a Anáfora de Hipólito;
  • 5 são intermediárias entre os dois;
  • 2 derivam de uma provável interpolação oriental;
  • 1 é moçárabe;
  • 1 é galicana;
  • 2 foram especialmente compostas na atualidade.

A verdadeira razão, contudo, parece ter sido outra e foi explicitada por Enrico Mazza em seu extenso comentário sobre as novas preces eucarísticas (3). O texto de Santo Hipólito não teria sido usado em sua totalidade porque contém “termos e expressões que poderiam causar confusão no nosso atual estado teológico”. Tradução: poderiam contradizer a teologia modernista. Vamos a alguns exemplos:

  • Cristo como o “anjo [porta-voz] da Vossa vontade” – Esse trecho foi removido porque é “místico” (4);
  • “Revelou-se Vosso Filho” – Esse trecho foi omitido porque se aproxima da heresia docetista (Cristo apenas pareceria ser o Filho de Deus). Se é assim, se ele implicitamente pode levar a uma heresia, por que usá-lo no fim das contas?;
  • Nosso Senhor morreu “para salvar do sofrimento todos aqueles que em Vós confiaram” – Obviamente essa parte não é suficientemente “universal”, pois implica em que só os católicos é que serão libertos do sofrimento;
  • Nosso Senhor passou por sua Paixão “para destruir a morte, quebrar as amarras do demônio, calcar o Inferno sob seus pés, e liderar os justos em direção à luz” – Novamente insuficientemente universalista, além de ter conceitos que não refletem a mentalidade moderna (demônio, mal, Inferno, etc.);
  • Graças a Deus, Ele nos considerou dignos de estarmos em sua presença e servi-Lo como “padres” – “Padres” era uma expressão a ser omitida porque vai de encontro à teologia da “assembleia celebrante”.

Portanto, a Oração Eucarística II não é a restauração de um tesouro litúrgico da antiguidade. Ela de fato contém frases atribuídas a Santo Hipólito, mas é muito mais um texto construído pelos burocratas do Vaticano (Consilium) em 1967 que qualquer outra coisa. Ainda outro ponto: Hipólito é santo em virtude de seu martírio,  de modo que seu agir anterior, como anti-papa, deveria fazer com que qualquer produção intelectual dele fosse vista com cuidado e, no campo litúrgico, inferior ao venerado Canon Romano.

OBS: Há um tópico no fórum que motivou este post e no qual novos dados devem ser acrescentados.

(1) SC Rites (Consilium), Norms on the Use of Eucharistic Prayers I-IV, Documents on the Liturgy: 1963-1979, n. 1933.

(2) Bugnini, Annibale, CM. La Riforma Liturgica (1948-1975). Rome: Edizione Liturgiche, 1983, p. 449.

(3) Mazza, Enrico. Eucharistic Prayers of the Roman Rite. New York: Pueblo, 1986, p. 93.

(4) “Essa é uma descrição cristológica de origem judaico-cristã que hoje não diz nada mesmo quando traduzida como ‘anjo da Vossa vontade’. A frase expressa a ideia de revelação que, após ter tido um uso inadequado no passado, é hoje pouco compreendida na medida em que parece isentar os cristãos da pesquisa e do estudo. Esse tipo de esforço é considerado um sinal de autêntica humanidade e critério metodológico para um progresso verdadeiro. De acordo com a mentalidade de nossa época, o que não é adquirido por uma pesquisa laboriosa não vale a pena ser considerado. Algo, portanto, que não se enquadra nisso, é visto como pertencendo ao mundo peculiar do ‘misticismo’, no qual a revelação se confunde com os sonhos, a iluminação com fantasias.” Mazza, 92-93.

Tradução, adaptação e complementação de um trecho do livro Work of Human Hands (Cekada, Anthony. West Chester, Ohio, EUA: Philothea Press, 2010, pp. 328-329).

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Nota do editor

Cânon de Santo Hipólito

Prece II

℣. O Senhor esteja convosco. ℟. E com o teu espírito.
℣. Corações ao alto. ℟. Nós o temos no Senhor.
℣. Demos graças ao Senhor, nosso Deus. ℟. É digno e justo.Damo-Vos graças, Senhor, por vosso dileto Filho Jesus Cristo, a Quem, nesses últimos tempos, enviastes como nosso Salvador e Redentor e Anjo de vossa vontade; Ele que é vosso Verbo inseparável; por Quem tudo foi feito e tudo Vos é agradável; Ele Quem enviastes do céu como Filho da Virgem e que no claustro do seu útero encarnou-Se e mostrou-Se como vosso Filho nascido do Espírito Santo e da Virgem; Ele que, por vossa vontade, adquiriu para Vós, ao estender os braços entregando-Se, o povo santo, para que fossem libertos por Sua Paixão todos aqueles que em Vós creram e voluntariamente sofreu, para que a morte fosse dissolvida e fossem destruídos os grilhões do diabo, o inferno pisado e os justos iluminados para, ao fim, serem ressuscitados.Ele tomou o pão e deu graças e disse: Tomai e comei.

ISTO É O MEU CORPO, QUE SERÁ QUEBRADO POR VÓS.

Do mesmo modo com o cálice disse.

ESTE É O MEU SANGUE, QUE POR VÓS É DERRAMADO.
Quando isto fizerdes, fazei em minha memória.

Lembramos, portanto, Sua morte e ressurreição, oferecemos a Vós o pão e o cálice dando-Vos graças, nós que nos achamos dignos de estar diante de Vós e servir-Vos. E rogamos que envieis vosso Espírito Santo nas oblações da Santa Igreja; que Vos digneis congregá-la sempre unida, concedei a todos os que a receberem sirvam para os santos na plenitude do Espírito Santo como confirmação na verdade, para que louvando-Vos e glorificando-Vos pelo vosso Filho Jesus Cristo, por Quem Vos é dada honra e glória, Pai e Filho com o Santo Espírito na vossa Santa Igreja agora e pelos séculos dos séculos. Amém.

℣. O Senhor esteja convosco. ℟. E com o teu espírito.
℣. Corações ao alto. ℟. Nós o temos no Senhor.
℣. Demos graças ao Senhor, nosso Deus. ℟. É digno e justo.

Na verdade, é justo e necessário, é nosso dever e salvação dar-vos graças, sempre e em todo lugar, Senhor, Pai santo, Deus eterno e todo-poderoso, por Cristo, Senhor nosso. Ele é a vossa palavra viva, pela qual tudo criastes. Ele é o nosso Salvador e Redentor, verdadeiro homem, concebido do Espírito Santo e nascido da Virgem Maria. Ele, para cumprir a vossa vontade, e reunir um povo santo em vosso louvor, estendeu os braços na hora da sua paixão, a fim de vencer a morte e manifestar a ressurreição. Por ele, os anjos celebram vossa grandeza e os santos proclamam vossa glória. Concedei-nos também a nós associar-nos a seus louvores, dizendo (cantando) a uma só voz:

Santificai, pois, estas oferendas, derramando sobre elas o vosso Espírito, a fim de que se tornem para nós o Corpo e (+) o Sangue de Jesus Cristo, vosso Filho e Senhor nosso.

Estando para ser entregue e abraçando livremente a paixão, ele tomou o pão, deu graças, e o partiu e deu a seus discípulos, dizendo:

TOMAI, TODOS, E COMEI: ISTO É O MEU CORPO, QUE SERÁ ENTREGUE POR VÓS.

Do mesmo modo, ao fim da ceia, ele tomou o cálice em suas mãos, deu graças novamente, e o deu a seus discípulos, dizendo:

TOMAI, TODOS, E BEBEI: ESTE É O CÁLICE DO MEU SANGUE, O SANGUE DA NOVA E ETERNA ALIANÇA, QUE SERÁ DERRAMADO POR VÓS E POR TODOS PARA A REMISSÃO DOS PECADOS. FAZEI ISTO EM MEMÓRIA DE MIM.

Eis o mistério da fé! Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!

Celebrando, pois, a memória da morte e ressurreição do vosso Filho, nós vos oferecemos, ó Pai, o pão da vida e o cálice da salvação; e vos agradecemos porque nos tornastes dignos de estar aqui na vossa presença e vos servir.

E nós vos suplicamos que, participando do Corpo e Sangue de Cristo, sejamos reunidos pelo Espírito Santo num só corpo.

Lembrai-vos, ó Pai, da vossa Igreja que se faz presente pelo mundo inteiro: que ela cresça na caridade, com o Papa (N.), com o nosso Bispo (N.), e todos os ministros do vosso povo.

Lembrai-vos do vosso filho (da vossa filha) N., que (hoje) chamastes deste mundo à vossa presença. Concedei-lhe que, tendo participado da morte de Cristo pelo batismo, participe igualmente da sua ressurreição.

Lembrai-vos também dos (outros) nossos irmãos e irmãs que morreram na esperança da ressurreição e de todos os que partiram desta vida: acolhei-os junto a vós na luz da vossa face.

Enfim, nós vos pedimos, tende piedade de todos nós e dai-nos participar da vida eterna, com a Virgem Maria, Mãe de Deus, São José, seu esposo e os santos Apóstolos e todos os que neste mundo vos serviram, a fim de vos louvarmos e glorificarmos, por Jesus Cristo, vosso Filho.

Por Cristo, com Cristo, em Cristo, a vós, Deus Pai todo-poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a glória, agora e para sempre.

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