O REINADO DE DIOCLECIANO: I PARTE – A INSTITUIÇÃO DA TETRARQUIA

Este texto é o primeiro de uma série sobre a história da Igreja; inicialmente, planejamos começar pelo I Concílio de Niceia, mas achamos por bem fazer uma síntese do período imediatamente anterior ao Concílio, abrangendo a história do Império Romano, de modo a tornar mais claros alguns de seus eventos. Decidimos, então, iniciar pelo reinado de Diocleciano; depois, iremos falar sobre a ascensão do imperador Constantino, para só então falarmos do Concílio propriamente dito, com suas causas e consequências.

***

tetrarquia-en-el-Imperio-Romano-600x350

Diocleciano nasceu na região da Dalmácia (atual Croácia) por volta do ano 244. De origem humilde, ascendeu ao posto de chefe da escolta imperial, a partir do qual pôde conquistar o trono romano após derrotar Carino, o último herdeiro do imperador Caro, por volta do ano 284.

Ao assumir o trono, encontrou um império em convalescença: as fronteiras ocidentais eram invadidas pelos povos germânicos, ao passo que as orientais eram atacadas pelo Império Persa. A administração romana também não conseguia  acabar com a crise socioeconômica que afligia o Império desde o fim das conquistas territoriais no reinado do imperador Trajano, que foi agravada com as várias guerras civis que aconteceram no século III. Havia escassez de alimentos e diminuição de matérias-primas, o comercio decaíra e as cidades diminuíram

Esse foi o terreno propício para sublevações populares como a dos bagaudes, os “vagabundos”, formada por camponeses arruinados, devedores insolventes e escravos fugitivos que promoviam na Gália saques e massacres; na Bretanha e no Egito a anarquia militar fazia as legiões proclamarem outros imperadores.

Diocleciano, percebendo que sozinho não seria capaz de contornar a crise e governar o Império de maneira eficaz, dividiu o trono em 286 com Maximiano; este ficou com as províncias ocidentais, aquele com as orientais. Uma nova divisão foi feita em 293, criando assim o regime da tetrarquia: os imperadores dividiram seu território com um governante que recebeu o título de César. Subordinados aos imperadores, os césares deveriam — em teoria — sucedê-los no trono. Diocleciano colocou junto de si o soldado Galério, enquanto o oficial Constâncio Cloro, pai do futuro imperador Constantino I, foi designado para Maximiano (a Figura 1 dá uma visão geral da tetrarquia).

O mapa mostra a parte correspondente a cada tetrarca, com a divisão das dioceses e a localização das capitais.

Figura 1 — Parte correspondente a cada tetrarca, com a divisão das dioceses e a localização das capitais.

O novo sistema manteve a lógica do anterior: cada tetrarca era responsável por governar e defender a parte que lhe coube na divisão territorial, embora ainda mantivesse o princípio de uma única autoridade. Isso era reforçado pela obrigação de que as leis, decretos e requerimentos ao imperador levasse o nome dos quatro e pela incontestável superioridade de Diocleciano. Conquanto Roma continuasse a possuir o status de principal cidade do Império, ela deixou de ser a capital de fato e quatro novas capitais — Nicomédia, Milão, Sírmio e Tréveris — foram instituídas, próximas às fronteiras, a fim de facilitar a defesa.

Estabelecida a divisão, os novos senhores de Roma iniciaram a defesa e reorganização do Império; os povos germanos foram empurrados para além do Reno e os persas, derrotados, foram obrigados a ceder terras à esquerda do Tigre para aumentar a defesa das planícies mesopotâmicas. Os bagaudes foram vencidos em Saint-Maur e a autoridade romana foi restaurada nas províncias rebeldes. Ao mesmo tempo, reformas socioeconômicas eram implementadas visando restabelecer a glória do Império Romano.

A administração central foi organizada em torno do “consistório sagrado”, que ganhou jurisdição universal em questões de administração e justiça; as províncias sofreram uma nova demarcação que culminou nas doze dioceses ─ que estão na origem das nossas arquidioceses. O exército foi afastado da política, além de ter passado por uma reforma no quadro de oficiais (eles passaram a ser escolhidos pelo mérito); teve também seu contingente aumentado e a cavalaria reforçada. O sistema de impostos foi melhorado com uma reforma na cunhagem de moedas e no cálculo tributário, mas o tabelamento de preços, instituído no Edito Máximo, não surtiu o efeito esperado e o aumento do custo de vida continuou. Para conter a falta de mão de obra especializada e o abandono das fazendas, foi instituído o sistema do colonato [1], que lançou as bases para o regime de trabalho feudal.

Para reforçar a autoridade dos governantes e reformar os cultos pagãos de Roma os tetrarcas levaram o culto à divindade do imperador ao auge. Tal culto já existia desde o tempo de Otaviano Augusto, mas a maioria dos imperadores, apesar de incentivá-lo, faziam-no de forma discreta ─ alguns chegaram a rejeitar um culto oficial enquanto estivessem vivos. No tempo de Diocleciano, a moderação desapareceu e os tetrarcas fizeram-se deuses em vida: todo espaço em que se moviam era considerado sagrado (sacrum palatium, sacrum cubiculum)Seu título oficial era dominus et deus; só eram vistos pelo público vestidos à maneira dos ídolos, enfeitados com várias joias e vestindo roupas cerimoniais e todo aquele que desejasse falar-lhes precisava cumprir o ritual da adoratio, que consistia numa inclinação profunda e em beijar a aba do manto imperial.

As reformas estabilizaram a crise, e parecia que o império tinha recuperado seu lugar como a nação mais poderosa do mundo. Por isso a sociedade romana foi pega de surpresa quando seus dois senhores anunciaram a renúncia ao trono imperial em 305.

Pois apenas dois anos antes, em novembro de 303, Diocleciano celebrou em Roma vinte anos de reinado e o triunfo [2] com que o Senado lhe havia presenteado em 287. Seis meses mais tarde, Maximiano presidiu os jogos seculares, um festival romano onde o passado do povo latino era comemorado. No dia primeiro de março de 305, quando devia comemorar seus vinte anos de reinado, Maximiano (em Milão) junto com Diocleciano (em Nicomédia) anunciou que havia abdicado do trono. Embora tenham dito que foi de comum acordo, eventos posteriores dão a entender que a decisão partiu de Diocleciano e a Maximiano coube apenas acatar.

As razões que levaram Diocleciano a abdicar, contudo, ainda não são um consenso para os historiadores modernos [3], mas Lactâncio, um historiador cristão que viveu na época em que ocorreram os fatos, afirma que foi por pressão de Galério, que não suportava mais ser o quarto na hierarquia e ter os piores domínios. Já velho e abatido por uma doença que quase lhe tirou a vida, e temendo o início de uma guerra civil que lançaria o império novamente na ruína, Diocleciano teria então concordado. Galério e Constâncio Cloro assumiram o trono imperial enquanto seus antigos senhores se retiraram para domínios longínquos. Maximiano se retirou para a cidade de Lucânia e Diocleciano voltou para sua terra natal [4], vindo a falecer entre 315-316.

________________
Notas

[1] O colonato fixou os camponeses nas terras que cultivavam, impedindo-os de abandoná-las ou exercer outra profissão. Seus descendentes também eram impedidos de mudar de classe social e deviam aprender o oficio dos pais. Esta medida também atingiu de forma similar os trabalhadores das cidades (comerciantes, artesãos…).

[2] O triunfo era uma cerimônia de condecoração militar que o Senado oferecia aos comandantes que realizavam grandes feitos em batalhas no estrangeiro. Um dos principais momentos da cerimônia era o desfile onde o comandante apresentava a população os espólios obtidos na guerra; para eternizar a condecoração eram construídos os arcos do triunfo, como os vários que existem até hoje.

[3] O livro moderno usado como fonte é da década de  40 do século passado. Desconhecemos se autores mais recentes já chegaram ao consenso.

[4] Diocleciano mandou fazer para si um imenso complexo palaciano a duas léguas de Salona, sua cidade natal. Seu mausoléu, construído como local de adoração à divindade do imperador, abriga hoje a catedral de São Dômnio.

***

Bibliografia

  • ROPS, Daniel. A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires. São Paulo: Quadrante, Sociedade de Publicações Culturais, 1988. v.1. p 386 e ss.
  • LACTÂNCIO, Lucio Célio Firmiano. A morte dos perseguidores. Disponível em <http://www.newadvent.org/fathers/0705.htm&gt;. Acesso em 10/12/2017.
Anúncios

Uma resposta em “O REINADO DE DIOCLECIANO: I PARTE – A INSTITUIÇÃO DA TETRARQUIA

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s