SANTO ANSELMO E O FILIOQUE

filioque

Hoje, dia de Santo Anselmo, publicamos a tradução de um texto, baseado em seus ensinamentos, que defende a doutrina do Filioque.

Texto original aqui.

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Santo Anselmo contra os gregos

  

A questão da processão do Espírito Santo ainda é um pomo de discórdia entre o Oriente grego e o Ocidente latino. Historicamente os gregos ortodoxos têm negado a doutrina conhecida como Filioque (literalmente: «e do Filho»), a convicção cristã latina de que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho, como expresso no credo Niceno-Constantinopolitano. Eles rejeitaram e continuam a rejeitar este ensinamento, declarando, em vez disso, que o Espírito Santo procede apenas do Pai. Não têm faltado à Igreja Santos e teólogos brilhantes defendendo a tradição latina. Neste ensaio examinaremos os argumentos de Santo Anselmo de Cantuária contra a posição grega e a favor da dupla processão do Espírito Santo. Falecido em 1109, Santo Anselmo, teólogo rigoroso e um dos mais importantes clérigos de sua época, é considerado um dos pais do movimento escolástico.

A célebre obra de Santo Anselmo sobre o Espírito Santo é De processione Spiritus Sancti, a qual, embora contendo importantes contribuições à teologia trinitária por si mesma, foi escrita para defender a doutrina ocidental do Filioque contra os gregos (recomendamos a leitura, para uma compreensão básica sobre Deus e a Santíssima Trindade, o link indicado na apresentação acima).

Nesta obra essencial, ele refina as distinções entre unidade indivisível e diversidade incompatível dentro da Divindade para estabelecer uma estrutura a partir da qual tenta demonstrar a dupla processão do Espírito Santo. Ele distingue duas expressões básicas: (1) «Deus de Quem Deus existe» e (2) «Deus de Deus». Ora, cada uma das três Pessoas da Trindade tem uma posição ou relação exclusiva dentro dessa estrutura. O Pai é único porque é Deus de Quem Deus existe, porque o Filho e o Espírito Santo procedem Dele. Mas Ele não é Deus de Deus porque Ele Mesmo não procede de ninguém e não é gerado. O Pai é o «fundamento» da Trindade; Ele é 1, mas não 2.

O Filho, por Sua vez, é tanto 1 como 2. É gerado pelo Pai e é Deus de Deus; Ele também espira o Espírito Santo, Que procede do Filho. O Espírito Santo então é 2, mas não 1, porque procede do Pai e do Filho. Mas nem o Pai nem o Filho procedem ou são gerados Dele. Ou, para ser mais simples:

  • Pai: 1, mas não 2;
  • Filho: 1 e 2;
  • Espírito Santo: 2, mas não 1

O objetivo destas distinções é sustentar uma pluralidade real entre as Pessoas da Divindade e explorar Suas relações mútuas. E, nesse ponto, Santo Anselmo afirma que tanto os latinos quantos os gregos concordam entre si. A partir dessa base comum, ele declara: «Tendo desenvolvido estas premissas, vamos indagar como, em Deus, a unidade indivisível e a pluralidade irredutível têm relação uma com a outra» [1]. Essa relacionalidade vai demonstrar a dupla processão do Espírito Santo.

É importante compreender que os gregos não negam que o Espírito Santo tenha alguma relação com o Filho. Alguns reconhecem que o Espírito Santo procede do Pai pelo Filho. Outros observam que, visto que o Espírito Santo tem que ser o Espírito de alguém, Ele deve ser o Espírito do Filho. As Escrituras o afirmam de modo semelhante (cf. Rom 8,9; I Pd 1,11). Assim, os gregos não negam nenhuma relação entre o Filho e o Espírito Santo. Isso equivaleria a romper a unidade da Divindade. Antes, eles negam que essa relação seja uma processão. O Espírito Santo não procederia do Filho, mas somente do Pai, muito embora Ele tenha, sim, alguma relação com o Filho – assim dizem os gregos.

[Santo] Anselmo concorda com os gregos em que, se se afirma a pluralidade de Pessoas e a unidade da Divindade, o Filho e o Espírito Santo devem estar em algum tipo de relação. Mas, se essa relação não é uma processão, então que tipo de relação seria? Aqui ele argumenta que apenas a processão faz algum sentido. A Revelação Divina mostra que somente de duas maneiras Deus pode ser de Deus: pela geração ou pela processão. Se o Espírito Santo não procede do Filho, a única outra forma pela qual Ele pode estar relacionado ao Filho é ser gerado por Ele. Mas o teólogo medieval afirma que isso não seria adequado, pois tornaria o Espírito Santo Filho do Filho ao mesmo tempo em que o Filho é o Filho do Pai. Isso tornaria o Espírito Santo um neto, o que é um absurdo.

Entretanto, se o Filho e o Espírito Santo têm algum tipo de relação, então o Espírito Santo deve proceder do Filho ou o Filho do Espírito Santo. O Doutor Magnífico obviamente defende a primeira afirmação, uma vez que, se o Filho procedesse do Espírito Santo, Este seria o Pai do Filho, algo sem nenhum fundamento na Tradição cristã, que afirma claramente que o Filho é gerado pelo Pai. Dizer diferentemente tornaria o Pai e o Espírito Santo idênticos quanto às Suas relações. O Filho não pode proceder do Espírito Santo porque Ele seria o Filho do Espírito Santo. Mas, visto que as Escrituras referem-se ao Espírito Santo como o Espírito do Filho, faz sentido concluir que a relação entre os dois é aquela em que o Espírito Santo procede do Filho tanto quanto do Pai.

Sto. Anselmo também recorre às Escrituras para provar a dupla processão. Em Jo 15,26, Jesus diz que enviará o Espírito do Pai. Jesus é o agente que «envia» o Espírito. Em Jo 14,26, é o Pai que «envia» o Espírito, mas Ele faz isso em nome de Jesus. Claramente tanto o Pai quanto o Filho são retratados no Evangelho de São João «enviando» o Espírito Santo, e não é dito que Nenhum dos Dois o faça exclusivamente.

O santo teólogo faz ainda uma observação interessante sobre Mt 11,27: «Ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelá-lo». E se pergunta se o Espírito Santo pode ser incluído entre os que «conhecem» o Pai e o Filho. Se o Espírito Santo não tivesse conhecimento do Filho e do Pai, seria menos que cada um Destes e, por consequência, não seria Deus. Obviamente o Espírito Santo tem esse conhecimento, mas como Ele o possui? [Santo] Anselmo consente apenas duas possibilidades: que o Filho teve que revelar esse conhecimento do Pai ao Espírito Santo exatamente como Ele faz com as criaturas ou então que o Espírito Santo conhece por força de compartilhar Sua essência com o Pai e o Filho. Ele serve-se deste dilema para defender a necessidade da dupla processão. Nas suas próprias palavras:

Se os gregos não querem abertamente se opor à verdade, então que escolham entre duas alternativas: (1) ou o Espírito Santo não conhece o Pai e o Filho a menos que o Filho revele [esse conhecimento a Ele], ou (2) já que, se o Pai e o Filho Se conhecem mutuamente, e Eles são um com o Espírito Santo, então, quando se diz que Eles Se conhecem mutuamente, conclui-se necessariamente que o Espírito Santo está incluído neste conhecimento. De fato, não há meio-termo, desde que [os gregos] não desejem inteiramente retirar este conhecimento do Espírito Santo ou inteiramente a verdade das palavras da Verdade. Ambas as coisas seriam amaldiçoadas por uma confissão verdadeira. Pois a Verdade fala o seguinte: «Ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelar [este conhecimento]». Realmente, se eles optam pela versão do conhecimento do Pai e do Filho pelo Espírito Santo através da revelação do Filho, então o Espírito Santo adquire este conhecimento do Filho. E este conhecimento é, para o Espírito Santo, nada mais do que a Sua natureza. Consequentemente Ele existe e procede do Filho, uma vez que Ele procede Daquele de Quem Ele existe. Por outro lado, suponha que eles [optem por] sustentar: quando se diz que o Pai e o Filho conhecem-Se mutuamente, então, já que a essência através da qual Eles Se conhecem é a mesma para o Espírito Santo, conclui-se que o Espírito Santo compartilha esse conhecimento. [Nesse caso], quando eles interpretam que o Espírito Santo procede do Pai, sobre Quem o Filho diz «Eu e o Pai somos Um», que eles confessem conosco, graças à identidade essencial do Pai e do Filho, que o Espírito Santo sem dúvida procede também do Filho. [2]

Assim, a menos que desejemos insistir na afirmação absurda de que o Espírito Santo não tem conhecimento inerente do Pai, somos forçados a admitir que o Espírito Santo procede do Filho e do Pai, duplamente.

[Santo] Anselmo também argumenta que o Espírito não pode de nenhum modo ser considerado o «Espírito de Cristo» ou o Espírito do Filho se Ele não proceder do Filho:

Contudo, eu pergunto aos que negam que o Espírito Santo exista e proceda do Filho: como eles interpretam o fato de que Ele [o Espírito] seja tanto do Filho que o Filho O envie como Seu próprio Espírito. Será que eles pensam que o Pai deu Seu próprio Espírito ao Filho, como a Quem não tivesse [um espírito] Dele mesmo? (Pois o Filho possui [um espírito] Dele mesmo ou de um outro. Mas Ele não pode tê-lo de alguém mais, exceto do Pai) Nesse caso, o Filho teria recebido [este espírito] do Pai, de Quem Ele o tem, e o Pai teria dado o Espírito Santo ao Filho como a quem não tivesse [um espírito] Dele mesmo. A esta altura, que [os gregos] mostrem (visto que o Pai e o Filho e o Espírito Santo são iguais, e que cada um deles é suficiente para Si Mesmo) qual razão ou necessidade o Filho tinha para que o Pai desse Seu próprio espírito a Ele, em vez de dar Seu próprio Filho ao Espírito Santo. [3]

Um argumento dos gregos que o Santo Doutor tenta refutar diretamente é a opinião de que Romanos 11,36, que diz de Deus que «todas as coisas são Dele, por Ele, e para Ele», refere-se às relações dentro da Divindade, em que o Pai é Aquele de Quem são todas as coisas; o Filho, por Quem são todas as coisas; e o Espírito Santo, em Quem são todas as coisas». Uma vez que as Escrituras dizem «todas as coisas», o Espírito Santo seria incluído em «todas as coisas» como algo que é do Pai, mas é dado pelo Filho. A resposta de Sto. Anselmo é simples, mas constrangedora. Se os gregos insistem em que «todas as coisas» seja tomada como o título por uma proposição universal absoluta, então o Pai e o Filho devem ser incluídos em «todas as coisas» também, o que levaria a uma absurdidade óbvia. Fica evidente que os gregos não podem usar o que diz a citada perícope contra o Filioque.

[Sto.] Anselmo oferece mais argumentos no restante de sua obra, que possui 16 capítulos. Se quiser ler a integridade desse importante tratado, pode clicar aqui para baixar uma versão em pdf do De processione Spiritus Sancti, de Sto. Anselmo. Seus argumentos não são exaustivos, devendo ser suplementados por outros tratados teológicos , mas fornecem uma base bastante sólida para discussões sobre o Filioque e constituem uma contribuição importante ao corpus da teologia latina ocidental.

 

NOTAS

[1] De processione Spiritus Sancti, 1

[2] Ibid., 7

[3] Ibid., 4

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Tradução: Ana Cláudia

  

Nota do editor

Em breve publicaremos um texto mais exaustivo sobre o tema Apresentamos aqui um texto um pouco mais exautivo.

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2 respostas em “SANTO ANSELMO E O FILIOQUE

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